O artesanato assume o centro da cena na CASACOR Brasília
Brasília não é uma cidade que, à primeira vista, remete ao feito à mão. Sua identidade visual foi forjada em concreto aparente, curvas monumentais e o brutalismo de Niemeyer, elementos que marcaram a capital. A 34ª edição da CASACOR Brasília, realizada na Casa do Candango com o tema “Mente e Coração”, inverte essa percepção ao colocar o artesanal no núcleo de vários projetos, não como um detalhe decorativo, mas como parte estrutural da narrativa arquitetônica.
Feito a Mão Sebrae: o artesanato como expressão cultural
O projeto Feito a Mão Sebrae, assinado por Rick Hudson, é o exemplo mais direto dessa mudança. Em seus 100 metros quadrados, comércio e residência se fundem em uma experiência imersiva que traduz a riqueza cultural do Cerrado para o universo da arquitetura de interiores. A curadoria destaca peças de designers e artesãos do Distrito Federal, como a coleção Nós, criada pelo Pé Esquerdo, Studio Jader Rodrigues e Instituto Ser Tão Fort, que reúne luminárias, mesas e espelhos feitos com madeiras brasileiras e cordas artesanais.
Além disso, o projeto prioriza sistemas construtivos secos e industrializados, com materiais recicláveis, mostrando que tradição manual e sustentabilidade podem caminhar juntas.
Um altar dedicado à arte manual
Outro destaque é o Entre, assinado por Alex Claver e Wilker Medeiros, do Studio 2 Arquitetura. Com 150 metros quadrados, o espaço centraliza o “Altar do Feito à Mão”, uma área envolta por cortinas de veludo verde que abriga oficinas artísticas ao vivo. Essa escolha confere um caráter quase ritualístico ao artesanal, que dialoga com obras de artistas como Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Vik Muniz e Siron Franco, sob curadoria da Galeria Expoarte.
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Fonte: diretodecaxias.com.br
Materiais e técnicas que evocam o Cerrado
Projetos como Praça Raiz, de Ana Luísa Jardim, transformam o paisagismo em uma experiência sensorial, utilizando cordas náuticas, macramê e vasos de barro para valorizar a ancestralidade e o trabalho manual. O espaço ainda conta com um mural exclusivo do artista Daniel Toys e uma pérgola modular que organiza as áreas de convivência.
Já o Espaço São Geraldo, criado por Alessandra Lima Oliveira da Tudo Arquitetura e Construção, aposta em uma paleta de tons naturais que dialoga com materiais como palha, barro e cobogó. Esses elementos remetem a uma tradição construtiva distante do concreto armado, mas que aqui convivem harmoniosamente com obras dos Irmãos Campana.
O barro como acabamento de luxo
No Chalé Botteles – Terra e Fogo: A Casa é Cura, de Daniel Mendonça, a cerâmica artesanal se mistura a pedras naturais, aço com acabamento artesanal, linho e couro. Com apenas 78 metros quadrados, o ambiente resgata a atmosfera acolhedora da vida no campo, marcada simbolicamente pela presença do fogo.
Artesanato e memória afetiva
O Lar das Três Marias, projeto da ON Arquitetura, imprime um significado pessoal ao feito à mão. Inspirado na coleção de luminárias assinada por Luciana Canalli em homenagem às mulheres de sua família, o espaço de 60 metros quadrados reinterpreta o conceito de casa-ateliê e traz uma curadoria voltada para o universo feminino, guiada por um painel artístico curvo que reforça o poder da criação feminina.
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Fonte: diariofloripa.com.br
O Loft Jade, idealizado por Alessandra Passero e Didacio Duailibe, reforça essa mesma ideia ao afirmar que a verdadeira sofisticação nasce da autenticidade dos materiais e do trabalho artesanal — uma síntese da proposta que permeia essa edição da mostra.
Cerrado tecido e moldado
O muxarabi, treliça de origem árabe associada à arquitetura tradicional brasileira, aparece em vários projetos. Em Nosso Alpendre, de Larissa Dias Arquitetura, o muxarabi de cumaru integra composições com quartzitos e pedras, valorizando o encontro e a conexão com a natureza.
Do altar dedicado às oficinas artesanais ao uso do cobogó que relembra um ícone modernista na Livraria Senac, a CASACOR Brasília 2026 simboliza uma guinada: a capital das linhas retas e escalas monumentais experimenta a beleza da imperfeição controlada, da textura feita à mão e da narrativa que só o artesanal pode contar.

