Uma vida dedicada à cultura brasiliense
O poeta, jornalista e agitador cultural Luis Turiba faleceu nesta quarta-feira (26), aos 76 anos, em Salvador (BA). Nascido em Pernambuco, em 1950, Turiba construiu a maior parte de sua trajetória em Brasília, onde viveu por décadas. Na capital federal, atuou em importantes veículos de comunicação e se consolidou como uma das principais referências da poesia local. Pelo impacto de seu trabalho, recebeu o título de Cidadão Honorário de Brasília.
Turiba morreu em casa, vítima de complicações de saúde. Segundo relatos de veículos que acompanharam sua carreira, ele enfrentava um quadro pulmonar grave, decorrente das sequelas da Covid-19 longa, além de insuficiência cardíaca. Deixa cinco filhos e seis netos.
Jornalismo e prêmios que marcaram a carreira
Luiz Artur Toribio, nome de nascimento de Turiba, iniciou sua carreira jornalística aos 23 anos. Passou por redações de peso como O Globo, editora Manchete e Gazeta Mercantil antes de fixar-se em Brasília. Na capital, trabalhou no Jornal de Brasília e no Correio Braziliense, participando de coberturas de grande repercussão nacional.
Seu trabalho foi reconhecido com dois Prêmios Esso. O primeiro, em 1980, enquanto atuava no Jornal de Brasília, foi pela reportagem que revelou um encontro entre o então estagiário Renato Manfredini — futuro Renato Russo — e o ministro da Agricultura Delfim Netto. O segundo prêmio veio em 1995, no Correio Braziliense, por uma série investigativa chamada “A Máfia do Condomínio”. A cobertura denunciou irregularidades na regularização de áreas públicas e a expansão dos condomínios no Distrito Federal, revelando um dos grandes desafios urbanísticos da época.
Envolvimento político e contribuição cultural
Além do jornalismo, Turiba esteve presente em momentos decisivos da política brasileira. Trabalhou na assessoria de imprensa da Câmara dos Deputados durante a Assembleia Constituinte de 1987-1988 e integrou a equipe do Ministério da Cultura. Entre 2002 e 2005, atuou como assessor de comunicação do ministro Gilberto Gil, no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Paralelamente, desenvolveu sua carreira literária. Sua estreia na poesia aconteceu em 1977, com o livreto Kiprokó. Recebeu em 1998 o Prêmio Candango de Literatura, do Governo do Distrito Federal, pelo livro-CD Cadê. Publicou ainda Quetais (2014), Poeira Cósmica (2020) e Desacontecimentos (2022).
Revista Bric a Brac e a poesia que dialoga com Brasília
Na década de 1980, Turiba criou a revista Bric a Brac, que se tornou um espaço fundamental para encontros entre poetas, músicos e artistas de Brasília e outras regiões do país. A publicação ampliou a circulação da produção cultural local e aproximou o poeta de nomes importantes da música e da literatura brasileiras.
Um dos poemas mais conhecidos de Turiba, “Bico da Torre”, inspira-se na arquitetura e na paisagem de Brasília. A obra virou canção pelo músico Renato Matos e é uma referência da literatura da capital. Turiba relacionava sua poesia à experiência jornalística, afirmando que os anos de reportagem influenciaram sua escrita marcada pela observação do cotidiano, cenas objetivas e sensibilidade.
Pouco antes de falecer, escreveu um poema dedicado à filha Manu, dentista, que foi enviado a ela. Esse texto faz parte dos últimos registros de sua produção poética e revela uma faceta pessoal do autor. Para amigos e companheiros, sua maior contribuição foi a capacidade de conectar gerações de artistas e projetar a cultura brasiliense para além dos limites do Distrito Federal.
Resistência e legado
Durante a ditadura militar, Turiba participou do movimento estudantil e foi preso pela Polícia Militar. A repressão impediu que concluísse seus estudos, e ele ficou detido por meses. Essa experiência marcou sua trajetória, que sempre esteve ligada à luta pela liberdade e à resistência cultural.
A jornalista Fernanda Lambach, ex-mulher de Turiba, destacou sua essência: “Turiba me ensinou a importância da liberdade e de ter vento no rosto. Agora está livre para voar.”

