O Festival e a vitalidade do cinema brasileiro
O 59º festival de brasília do Cinema Brasileiro encerrou-se com uma mostra contundente da vitalidade do cinema nacional, que atravessa um momento marcado pela combinação de politização, lirismo, luto e uma notável força estética. “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” foi o título escolhido para melhor filme, coroando uma programação que trouxe à tona debates e narrativas relevantes para a cena contemporânea.
Longas que provocam e emocionam
Na principal competição de longas, dois filmes evidenciaram a maturidade do cinema brasileiro no século 21: o trabalho de André Novais Oliveira e “Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco, que conquistou o maior número de prêmios na noite final. A obra de Nolasco, ambientada na cidade goiana de Catalão, causa impacto ao apresentar cenas de sexo homossexual que desafiam os padrões morais locais. Ainda assim, essa provocação não é inédita diante da recepção de “Vento Seco”, que chocou conservadores com cenas explícitas que circularam em cópias piratas.
“Pequenas Tragédias” transita entre o humor e a melancolia da vida queer numa cidade do interior, onde a busca por liberdade de costumes impulsiona a fuga. O filme é estruturado em um prólogo, cinco capítulos, um entreato e um epílogo, conduzindo o espectador por diferentes camadas dessa experiência. Guilherme Theo interpreta com ironia o próprio diretor Daniel Nolasco, em uma cena que gerou comentários no festival ao interromper o início de uma cena explícita para atender a uma promessa feita ao distribuidor.
Apesar da ausência de cenas mais explícitas, o filme permanece desafiador para o público conservador, mantendo uma provocação sutil e eficaz. A desconstrução de tabus e o olhar crítico sobre questões de sexualidade ganham forma em uma narrativa que dialoga diretamente com a realidade brasileira contemporânea.
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Histórias de amor e memória
Em contraponto, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” aposta em uma narrativa menos inventiva, porém igualmente valiosa. O longa acompanha a trajetória de uma relação amorosa que atravessa cinco décadas, desde os anos 1970 até o tempo presente, quando os personagens Gilberto e Jacira enfrentam a velhice e questões de saúde. O elenco reúne nomes como Norberto Novais Oliveira, pai do diretor, e Conceição Evaristo, que interpretam as versões mais velhas do casal, enquanto Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo dão vida às versões jovens.
Uma breve sequência de baile destaca a trilha sonora de Gerson King Combo e Hyldon, embalando um flerte marcado pela tensão e pelo perdão tácito. Cenas de humor entre os personagens idosos revelam uma intimidade cheia de nuances, como quando um deles delata o outro aos médicos. A atmosfera muda quando Jacira passa mal e é atendida por funcionários de uma loja de móveis, introduzindo elementos fantásticos que ressignificam a narrativa e dão peso ao título do filme.
Diversidade no olhar e nas propostas
Além dos destaques, a programação do festival trouxe uma pluralidade de vozes e estilos. “Todo o Sentimento”, de Glenda Nicácio e Ary Rosa, apesar de enfraquecer em sua sátira política, ganha força em suas cenas ambientadas no Recôncavo Baiano, onde Aldri Anunciação e Lucas Leto entregam performances memoráveis. O longa revisita personagens de trabalhos anteriores da dupla, aprofundando temas como a limitação física e a relação entre ídolo e fã.
Em uma vertente mais inusitada, “Privadas de Suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, mistura humor escatológico com crítica social ao retratar a crise de meia-idade de uma promotora de eventos diante de privadas assassinas. A obra destaca questões de gênero e ironiza o universo dos influenciadores digitais, trazendo um frescor inesperado à seleção.
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Perspectivas políticas e culturais
O olhar conservador marca “Tudo é Tempo”, de Marcos Guttman, que acompanha um grupo de eleitores ao longo de duas décadas, revelando a complexidade e a oscilação do pensamento político brasileiro. Já “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, de Denise Vieira, traz a representação brasiliense na seleção com uma narrativa que, apesar de irregular em seu desenvolvimento, fecha com imagens que dialogam com o cinema de Ozualdo Candeias.
O luto em animação
Por fim, “Ana en Passant”, de Fernanda Salgado, utiliza técnicas variadas de animação para abordar o luto, tema recorrente no festival. O filme se destaca nas sequências que exploram imagens exclusivas do universo animado, enquanto as partes que recorrem à rotoscopia — animação baseada em movimentos reais — sugerem que um elenco vivo poderia ter enriquecido a obra.
Ao consolidar esses trabalhos, Daniel Nolasco e André Novais Oliveira se destacam por elevar o nível do festival e do cinema brasileiro. A diversidade estética e temática da programação reforça a relevância do evento como espaço de reflexão e circulação cultural, com projeção para públicos variados e interlocuções múltiplas no cenário nacional.

