CRISPR/Cas9: Uma revolução na edição genômica
Uma tecnologia capaz de modificar o genoma de plantas, animais e microrganismos de forma mais rápida, econômica e precisa tem atraído atenção global. Trata-se da CRISPR/Cas9 (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats), uma ferramenta que possibilita editar o DNA sem necessidade de inserção de genes externos, o que facilita sua aceitação social. Com aplicações que vão desde o desenvolvimento de culturas agrícolas resistentes a pragas até a correção genética em animais, essa inovação transforma pesquisas e abre caminho para soluções concretas.
Workshop em Brasília reúne líderes da inovação genética
Em 26 de outubro, a Embrapa Recursos Genéticos e biotecnologia, junto ao Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) e o Agropensa, realizou o Workshop em Edição de Genomas: CRISPR/CAS9. O evento contou com a presença da cientista Caixia Gao, da Academia de Ciências Agrícolas da China (CAS), pioneira na aplicação da CRISPR/Cas9 em plantas. Seu trabalho inicial focou no trigo, tornando-o resistente à doença fúngica Powdery mildew, uma ameaça significativa para culturas agrícolas. Atualmente, Gao amplia a aplicação para milho e arroz, demonstrando a versatilidade da ferramenta.
Precisão e rapidez que redefinem práticas tradicionais
Segundo Caixia Gao, a CRISPR/Cas9 supera tecnologias anteriores como as TALENs (Transcription Activator-like Effector Nucleases) por sua agilidade, eficiência e custo reduzido. Além disso, a edição genética realizada não implica a criação de organismos geneticamente modificados (OGMs), o que contribui para maior aceitação pública. Testes com trigo editado comprovaram que as plantas são 100% livres de transgênicos, reforçando a segurança da técnica.
O pesquisador Alexandre Nepomuceno, da Embrapa Soja, explica que a tecnologia permite introduzir características específicas nas plantas sem transformar geneticamente o organismo, o que representa um avanço tanto científico quanto regulatório.
Potencial para a agricultura e além
O workshop destacou aplicações práticas em diferentes áreas. Na agricultura, Hugo Molinari, da Embrapa Agroenergia, utiliza a CRISPR/Cas9 para melhorar a cana-de-açúcar, focando em tolerância à seca e adaptação ao bioma Cerrado. Diante da complexidade genômica da cana, pesquisas com a planta modelo Setaria viridis abriram caminho para o desenvolvimento de genótipos multirresistentes.
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Fonte: acreverdade.com.br
Elibio Rech, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, apresentou a biologia sintética como uma abordagem para explorar a biodiversidade de forma sustentável. Ele considera a CRISPR/Cas9 uma ferramenta que permite ativar ou desativar genes, trazendo um novo paradigma para a engenharia genética.
Avanços na saúde humana e medicina genética
Na área médica, o professor Amílcar Tanuri, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolve pesquisas para bloquear receptores de entrada do vírus HIV usando CRISPR, com o objetivo de produzir fenótipo resistente em pacientes. Com cerca de 400 mil portadores do HIV no Brasil e 40 mil novos casos anuais, essa terapia genética pode ser decisiva para pacientes resistentes aos tratamentos convencionais. Tanuri também destaca o uso da tecnologia para redução de tumores cancerígenos, ressaltando os desafios regulatórios que ainda enfrentam essas inovações na saúde.
CRISPR na biotecnologia animal: uma nova etapa
Luciana Bertolini, da PUC-RS, explicou que a edição genética animal evoluiu desde os anos 1980, quando a eficiência das microinjeções foi baixa, até a era da CRISPR a partir de 2010, que trouxe maior precisão e resultados mais expressivos. Atualmente, existem mais de 300 animais editados, incluindo suínos, ovinos e bovinos, com aplicações que vão desde a produção de leite com menos alergênicos até vacas leiteiras sem chifres.
Nos Estados Unidos, o FDA demonstra tendência a considerar animais editados por CRISPR como não-transgênicos, o que pode influenciar políticas regulatórias globais.
Microrganismos e fermentação aprimorada
Steve Swinnen, da startup belgo-brasileira Global Yeast, utiliza a CRISPR/Cas9 para aprimorar linhagens industriais de levedura Saccharomyces cerevisiae. Essa levedura é fundamental para produção de pão, cerveja e etanol, e a edição genética visa melhorar sua capacidade de fermentação, contribuindo para eficiência industrial e sustentabilidade.
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Fonte: gpsbrasilia.com.br
Desafios regulatórios e propriedade intelectual
O painel dedicado à regulamentação levantou diferenças entre o Brasil e países como Estados Unidos, Argentina e China. Marcelo Freitas, da Embrapa, destacou que o Brasil avalia produtos resultantes de novas técnicas de melhoramento de plantas (NBts) considerando todo o processo, enquanto outros países focam no produto final.
Alexandre Nepomuceno, membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, reforçou que a definição regulatória das técnicas de edição genética é urgente para o avanço da pesquisa no País. Uma nota técnica normativa está em elaboração para esclarecer esses aspectos.
Na questão das patentes, Sibelle Silva, da Embrapa, explicou a disputa nos Estados Unidos entre Jennifer Doudna e Feng Zhang, do Massachusetts (MIT), pela titularidade da tecnologia. Atualmente, o sistema americano concede patentes a quem deposita primeiro. Mundialmente, existem 662 documentos de patentes relacionadas à CRISPR, sendo 22 concedidas nos EUA.
Potencial para o Brasil: expertise e colaboração
O evento evidenciou que o Brasil já possui conhecimento técnico para trabalhar com edição genômica. Elibio Rech ressaltou a importância de integrar os esforços das diversas instituições nacionais. Alexandre Nepomuceno aponta a necessidade de ampliar a formação especializada e fomentar parcerias nacionais e internacionais para fortalecer a pesquisa e aplicação da CRISPR/Cas9 no país.

