Sonário da Terra: Uma Viagem Sonora pelo Campo

O que os sons do cotidiano podem revelar sobre a vida no campo? Foi em busca dessa resposta que a cineasta e diretora de som brasiliense Camila Machado idealizou o projeto Sonário da Terra. Essa biblioteca sonora digital convida o público a explorar gravações realizadas em comunidades rurais do Distrito Federal, proporcionando uma imersão na diversidade sociocultural da região. Os registros estão disponíveis de forma gratuita no site www.sonario.com.br.

O acervo do Sonário da Terra foi coletado em 2023 durante oficinas e residências sonoras realizadas no Assentamento Pequeno William e no Acampamento 8 de Março, ambas localizadas na zona rural de Planaltina (DF). Com gravações que vão desde o gorjeio dos pássaros até contações de histórias e cantigas populares, o projeto oferece um inventário encantador do patrimônio cultural e imaterial dessas comunidades. Ao acessar a biblioteca, os ouvintes poderão se conectar com a rica tapeçaria sonora da vida rural.

Oficinas de Som: Formação e Produção Coletiva

As oficinas de captação e edição de som, fundamentais para a criação do projeto, foram conduzidas por Camila Machado e pela produtora cultural Adriana Gomes, que na época residia no Assentamento Pequeno William. Esse processo formativo permitiu que jovens das comunidades se tornassem os próprios criadores do acervo sonoro, dando voz às suas experiências cotidianas. Essa abordagem reafirma a importância da produção coletiva e do valor que as comunidades atribuem à sua cultura.

O Sonário da Terra recebeu financiamento do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF / SECEC-DF) e contou com o apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-DF) e da Comuna Panteras Negras. Esse projeto se expande a partir do Sonário do Sertão, gravado em 2018 no Nordeste brasileiro e premiado pelo Iphan, demonstrando a continuidade do trabalho de valorização da cultura rural no Brasil.

A Riqueza Sonora do Campo Brasileiro

O conceito por trás do Sonário da Terra vem sendo desenvolvido por Camila Machado desde 2009, por meio de oficinas audiovisuais em assentamentos, acampamentos, comunidades indígenas e pequenas propriedades ligadas à Via Campesina. Suas pesquisas culminaram em uma dissertação de mestrado na Universidade de Brasília (UnB) e em um doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF). “Durante esses trabalhos, conheci diferentes formas de escuta e produção sonora. O valor que as comunidades conferem a essas experiências me chamou a atenção”, ressalta a cineasta, que possui formação em Comunicação Social/Cinema pela UnB e especialização em Som pela Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba.

Disponível sob licença Creative Commons, a maior parte do acervo do Sonário da Terra pode ser utilizada de forma gratuita em projetos audiovisuais e culturais, contribuindo assim para a diversidade do imaginário sonoro brasileiro.

A Luta e o Trabalho das Comunidades Rurais

O Assentamento Pequeno William, que cerca de uma área de preservação ambiental em Planaltina (DF), começou como uma ocupação e homenageia um “sem terrinha” de dois anos, que faleceu devido à exposição a agrotóxicos. Desde 2010, 22 famílias têm trabalhado coletivamente para construir suas moradias e reforestar a região, cultivando árvores e práticas agroecológicas. Já o Acampamento 8 de Março, estabelecido em uma ocupação por mulheres do MST em 2012, é um exemplo de organização comunitária, com 80 famílias que cultivam e preservam a terra.

Sobre Camila Machado

Camila Machado é uma cineasta e produtora executiva da Trotoar, uma produtora de serviços audiovisuais. Atualmente, ela é doutoranda em Artes Contemporâneas na UFF e faz parte do SOMA, um grupo de estudos em Arte Sonora. Com vasta experiência na produção de filmes premiados, Camila trabalha em parceria com o diretor Cássio Oliveira na produção de um longa-metragem documental e uma série de ficção.

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