Setor de serviços reforça economia do Distrito Federal
Brasília vai muito além da imagem tradicional de cidade dominada pelo funcionalismo público. A economia privada, especialmente a área de serviços, tem se consolidado como um dos pilares da capital federal. Em 2024, esse setor contou com 42,4 mil empresas no Distrito Federal, empregou 435,8 mil pessoas e movimentou R$ 87 bilhões em receita bruta, segundo a Pesquisa Anual de Serviços (PAS) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 27 de agosto. O DF mantém a liderança do Centro-Oeste no segmento, destacando-se pela sua participação expressiva na receita.
Atividades cotidianas e serviços especializados impulsionam a receita
Os números refletem uma variedade de atividades que vão desde alimentação, comunicação e transporte até setores mais especializados, como tecnologia, consultorias e serviços administrativos. O destaque fica por conta dos serviços profissionais, administrativos e complementares, que concentram grande parte das empresas, trabalhadores e receita gerada na capital.
O economista e pesquisador da Universidade Católica de Brasília (UCB), Felipe Silva, relaciona essa configuração à estrutura econômica única da cidade. Diferentemente de estados com forte presença da agropecuária e indústria, Brasília concentra-se em atividades administrativas, financeiras, empresariais e tecnológicas, com foco em serviços de maior valor agregado.
“Os R$ 87 bilhões de receita não refletem apenas a quantidade de empresas, mas também a composição da economia brasiliense”, explica Felipe Silva.
Demanda pública estimula serviços privados
Embora a administração pública não integre o universo empresarial da PAS, sua presença na capital cria uma demanda indireta por serviços privados. Órgãos públicos, autarquias, entidades internacionais e representativas geram procura por tecnologia, comunicação, consultoria, segurança e manutenção, entre outros setores.
A renda relativamente elevada da população do Distrito Federal também impulsiona o consumo em áreas como educação, saúde privada, alimentação, lazer e serviços pessoais. “A estrutura institucional gera renda e demanda, e parte dessa renda retorna para a economia na forma de consumo de serviços privados”, destaca o economista.
Leia também: Economia do Distrito Federal Apresenta Estabilidade e Crescimento no 3º Trimestre de 2025
Leia também: Distrito Federal gera 1,9 mil empregos formais em maio de 2026
Mercado de trabalho qualificado e desafios salariais
No mercado de trabalho, o setor de serviços do DF apresenta uma remuneração média mensal de 2,4 salários mínimos, a terceira maior do país. Contudo, essa média oculta a diversidade do setor, que inclui desde profissionais altamente especializados até atividades intensivas em mão de obra com salários próximos ao mínimo.
Para Felipe Silva, a presença de ocupações qualificadas e de maior produtividade é evidente principalmente nos serviços profissionais, tecnológicos e empresariais. O desafio é aumentar a produtividade e a qualificação nas atividades que empregam grande número de trabalhadores.
Empreendedorismo acompanha a expansão dos serviços
O crescimento do setor pode ser percebido no cotidiano das empresas locais. A trajetória da empresária Gleyce Keli Gonçalves Feitosa, gestora de Marketing Digital e Conteúdo, ilustra essa expansão. Fundada em 2024, a MKT Digital Gama iniciou com foco em posicionamento no Google, mas rapidamente ampliou seus serviços para redes sociais, produção de conteúdo, desenvolvimento de sites e tráfego pago para atender às demandas dos clientes.
Atualmente, a empresa já atendeu mais de 100 clientes em pouco mais de dois anos, refletindo a evolução do segmento de informação e comunicação, que representa a segunda maior receita bruta do setor no DF, com R$ 21,5 bilhões, e o segundo maior gasto com pessoal, totalizando R$ 4,9 bilhões.
Rede de suporte empresarial fortalece economia local
Felipe Silva ressalta que Brasília desenvolveu uma economia de serviços empresariais sofisticada, que não atende apenas o consumidor final, mas também outras empresas e organizações. Consultorias, escritórios, tecnologia, terceirização, segurança e manutenção formam uma rede de suporte essencial para o funcionamento e crescimento dos negócios.
Gleyce observa esse efeito em cadeia entre seus clientes: à medida que as empresas crescem, expandem sua rede de fornecedores, incluindo contabilidade, tecnologia, comunicação e serviços jurídicos.
Leia também: Distrito Federal Registra Mais de 1,86 Milhão de Pessoas Endividadas em 2026
Leia também: Distrito Federal Lança 634 Vagas de Emprego com Salários de até R$ 2,5 Mil
Estrutura consolidada, mas com desafios à frente
Para Daniel Soares, assessor econômico da Fecomércio-DF, os números refletem uma estrutura robusta, com mais de 42 mil empresas e 435 mil trabalhadores no setor. O crescimento é especialmente forte em serviços profissionais, tecnologia, apoio administrativo e atendimento às famílias.
Dados da Fecomércio indicam que, em 2024, a receita nominal de informação e comunicação cresceu 16%, enquanto os serviços profissionais, administrativos e complementares avançaram 13,2%. Por outro lado, transportes, serviços auxiliares e correio tiveram queda de 2,3% no mesmo período.
Segundo Daniel, segmentos baseados em conhecimento, como tecnologia da informação, comunicação e consultoria, encontram terreno propício em Brasília, enquanto setores que dependem de logística enfrentam maiores desafios.
Custos e qualificação são desafios para o crescimento sustentável
Apesar da receita bilionária, o setor enfrenta obstáculos significativos, como custos operacionais, carga tributária elevada, dificuldades no acesso ao crédito, necessidade de modernização tecnológica e qualificação da mão de obra, especialmente para pequenos e médios negócios. A adaptação à Reforma Tributária adiciona um novo fator de complexidade com mudanças previstas em sistemas e processos.
José Aparecido Freire, presidente do Sistema Fecomércio-DF, destaca a importância de transformar os bons indicadores atuais em crescimento sustentável por meio de produtividade, inovação, qualificação e geração de empregos.
“O setor de serviços é um dos grandes motores da economia do Distrito Federal. Esses números refletem a força do empreendedorismo local e a capacidade das empresas de gerar oportunidades. O desafio agora é garantir que esse desempenho se mantenha e se amplie”, afirma.

