Crise nos cursos d’água do Distrito Federal

O Distrito Federal enfrenta um grave problema de poluição em diversos córregos e rios que cortam a capital. Entre os corpos hídricos mais afetados estão o córrego Riacho Fundo, o córrego Vicente Pires, o Ribeirão Sobradinho e o Rio Melchior. Também registram degradação ambiental significativa trechos dos rios Descoberto e São Bartolomeu, além de vários afluentes que desembocam no Lago Paranoá, conforme levantamento do Fórum de Defesa das Águas, do Clima e do Meio Ambiente do DF.

O impacto do modelo de ocupação e as mudanças climáticas

A deterioração desses cursos d’água está diretamente ligada ao modelo de ocupação territorial adotado no Distrito Federal nas últimas décadas. A expansão urbana sobre áreas de nascentes e zonas de recarga hídrica compromete a capacidade natural do solo de armazenar e filtrar água. Casos frequentes de erosão resultam da retirada da vegetação nativa, somados a descartes irregulares de esgoto causados pela ausência de planejamento urbanístico adequado.

Além disso, o aquecimento global, reconhecido como o maior desafio ambiental da atualidade, intensifica o problema. “Mudanças climáticas provocam chuvas mais intensas e concentradas, aumentando o escoamento superficial que carrega grandes quantidades de terra, lixo e poluentes para os cursos d’água. Isso resulta no assoreamento dos córregos, na degradação dos ecossistemas aquáticos e na redução da qualidade da água”, explica Guilherme Jaganu, coordenador do Fórum.

A bióloga Polyanna Campelo complementa que, “em unidades de conservação e áreas com vegetação nativa preservada do Cerrado, a água mantém boas condições. Porém, os cursos d’água em regiões urbanizadas sofrem impactos negativos devido à expansão urbana, remoção da vegetação ciliar e despejo de esgoto e outros poluentes”.

A bacia de São Bartolomeu e a pressão sobre os recursos hídricos

Entre as bacias hidrográficas mais prejudicadas do DF está a de São Bartolomeu, que inclui o Rio Pipiripau, Ribeirão Sobradinho, Ribeirão Taboca, Ribeirão Santo Antônio da Papuda, Ribeirão Cachoeirinha, Ribeirão Santana, Ribeirão Maria Pereira e Rio Saia Velha. Com cerca de 200 km de extensão, essa bacia é responsável pela drenagem de aproximadamente 46% do território da capital, abrangendo Planaltina, Paranoá, São Sebastião e Santa Maria.

Segundo a diretoria do Comitê de Bacias do Paranaíba (CBH), “casos como o do Rio Melchior e do Ribeirão Sobradinho mostram alta carga poluidora e baixa capacidade de recuperação natural. Enquanto grande parte dos corpos hídricos apresenta qualidade entre regular e boa, principalmente em áreas menos urbanizadas, existem trechos críticos em regiões densamente povoadas, onde a pressão humana compromete significativamente a qualidade da água”.

Soluções naturais e a participação da comunidade

Para reverter o quadro, Guilherme Jaganu defende medidas que combatam a erosão, reduzam a poluição, promovam a restauração da vegetação das margens, protejam nascentes e impeçam ocupações próximas aos cursos d’água. “É imprescindível ampliar recursos para soluções baseadas na natureza, como jardins de chuva, reflorestamento urbano, recuperação de áreas degradadas, criação de parques lineares, pavimentos permeáveis e ampliação da cobertura vegetal”, detalha o coordenador do Fórum.

Ele também destaca o papel da sociedade: “A participação popular é fundamental para denunciar lançamentos ilegais de esgoto, desmatamentos, aterros em áreas de preservação permanente e outras práticas que ameaçam os recursos hídricos”.

Polyanna Campelo reforça a importância dos povos tradicionais na conservação das águas. “Indígenas, quilombolas e outras comunidades mantêm práticas sustentáveis que garantem maior preservação da vegetação nativa, protegendo nascentes e o ciclo hidrológico”. Além disso, ela alerta que “ações pontuais, como a remoção de lixo, não são suficientes. É necessário ampliar o saneamento básico, controlar novas ocupações, restaurar matas ciliares, reduzir processos erosivos e integrar políticas públicas de recursos hídricos, habitação, planejamento urbano e meio ambiente”.

Denúncias de poluição no Recanto das Emas

Na última semana, um vídeo divulgado pela página Salvador Recanto denunciou poluição no Córrego Monjolo, situado no Parque Distrital do Recanto das Emas. As imagens mostram a água do riacho coberta por espuma branca. Segundo a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), uma investigação foi aberta em 26 de maio.

Moradores relataram que a poluição seria causada pelo despejo ilegal de esgoto proveniente de chácaras próximas. Também mencionam frequentes rompimentos de canos de esgoto na região, com o escoamento de resíduos para o curso d’água.

O caso do Rio Melchior

Entre os episódios mais conhecidos de poluição no DF está o do Rio Melchior, formado pela confluência do Ribeirão Taguatinga com os córregos do Valo e Gatumé, entre Ceilândia e Samambaia. O rio recebe diariamente mais de 1,5 bilhão de litros de esgoto, segundo o Fórum de Defesa das Águas.

Integrante da bacia hidrográfica do Descoberto, o Rio Melchior é um dos principais responsáveis pelo abastecimento hídrico do Distrito Federal. Classificado na Classe 4 pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), apresenta a pior qualidade de água prevista pela legislação ambiental brasileira.

Nos últimos anos, o rio sofreu também o despejo de rejeitos contaminantes de indústrias de embutidos, o que levou à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), em 2023, para apurar as causas da degradação.

Newton Vieira, representante do Movimento Salve o Rio Melchior, explica: “O documento da CPI mostra que o rio recebe uma carga poluidora muito superior à sua capacidade. Só de esgoto, ele recebe o triplo da sua vazão natural. Além disso, recebe efluentes de chorume do aterro sanitário de Brasília, resíduos industriais de abatedouros de aves e suínos e lixo residencial. O rio está bastante assoreado e precisa urgentemente de recuperação das suas margens”.

O relatório final da CPI, divulgado em dezembro de 2025, reconheceu falhas na fiscalização e apontou indícios de crimes ambientais, recomendando o indiciamento de empresas e órgãos do Governo do Distrito Federal (GDF). Em junho deste ano, o Ministério Público do DF (MPDF) abriu nova investigação sobre o caso, conforme divulgado pelo Brasil de Fato DF.

Projeto de recuperação do Rio Melchior

Em maio, o GDF lançou um chamamento público para executar o Projeto de Recomposição da Vegetação Nativa na Bacia do Rio Melchior, com investimento previsto de R$ 8 milhões. Organizações da sociedade civil (OSCs) interessadas têm 50 dias corridos para apresentar propostas após a publicação no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF). A iniciativa é coordenada pela Secretaria do Meio Ambiente do Distrito Federal (Sema-DF).

O projeto inclui o plantio, manutenção e monitoramento de cerca de 100 hectares em áreas de preservação permanente (APPs), nascentes e zonas estratégicas de recarga hídrica, ao longo de 48 meses. As ações contemplam áreas prioritárias do Rio Melchior, Ribeirão Taguatinga e dos córregos Cortado, Taguatinga e Gatumé.

Lançamentos ilegais e fiscalização

Monitoramento da Adasa identificou 67 pontos de lançamentos irregulares de esgoto com alto potencial de impacto ambiental em 2025. Foram realizadas 554 visitas técnicas em 220 locais estratégicos, revelando que a situação piora no período de seca, quando 87% das amostras apresentaram irregularidades.

A bactéria Escherichia coli, indicadora de contaminação por fezes humanas ou animais, foi a mais encontrada, presente em 41 amostras. Também foram detectadas concentrações elevadas de fósforo total em 40 amostras, sinalizando poluição por esgoto, fertilizantes e resíduos urbanos.

Outro ponto crítico apontado no relatório é o Aterro Sanitário de Brasília (ASB), criado em 2018 para substituir o antigo Lixão da Estrutural. O manejo da tubulação de chorume, líquido altamente poluente, é um desafio constante, embora a situação tenha sido parcialmente regularizada e continue sob monitoramento.

A Unidade de Recebimento de Entulhos (URE), no Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA), próximo à Estrutural, também apresenta problemas. A falta de cobertura vegetal adequada compromete a estabilidade da área de descarte, elevando o risco de erosão, conforme apontou a Adasa.

Em 2025, a agência aplicou três multas por descumprimento de normas ambientais, totalizando R$ 175.563. A reportagem tentou contato com a Adasa, que não respondeu até o fechamento desta matéria.

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