Uma Inovação que Transforma o Agronegócio

Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma inovadora metodologia que utiliza sensoriamento remoto para mapear os impactos das geadas nas lavouras de milho. Esta ferramenta contribui significativamente para reduzir os riscos climáticos e a incerteza sobre as perdas agrícolas. O modelo é altamente personalizável, o que facilita sua aplicação a diversas culturas e contextos agrícolas.

Com essa tecnologia, é possível realizar estimativas mais precisas durante as safras e oferecer suporte à criação de políticas públicas que beneficiem as cadeias produtivas. Além disso, a metodologia proporciona um respaldo essencial para sistemas de seguro rural. Essa pesquisa ganha ainda mais relevância em um cenário onde a produção mundial de grãos, como arroz, milho, trigo e soja, está concentrada em poucos países, incluindo China, Estados Unidos, Índia, Brasil e Argentina. Tal concentração torna o mercado particularmente sensível a oscilações na safra.

Impactos das Geadas e Mudanças Climáticas

A frequência de eventos climáticos extremos, como secas severas e chuvas intensas, tem sido uma preocupação crescente para os agricultores. Isso se torna ainda mais evidente em fóruns internacionais, como a COP30, realizada em Belém (PA). O desenvolvimento desta metodologia é uma resposta direta a esse contexto desafiador.

No estudo, os cientistas mapearam mais de 700 mil hectares de milho da segunda safra na mesorregião oeste do Paraná, especificamente nos municípios de Toledo e Cascavel. O objetivo era identificar os danos causados pelas geadas severas ocorridas entre maio e junho de 2021. Para isso, foram utilizados dados de sensoriamento remoto óptico, que foram obtidos por meio do sensor MultiSpectral Instrument, instalado nos satélites da missão Sentinel-2, integrados a técnicas de aprendizado de máquina, utilizando o algoritmo Random Forest.

O resultado foi impressionante: a metodologia alcançou uma taxa de acerto de 96% na identificação das lavouras afetadas, revelando que cerca de 70% das áreas analisadas sofreram prejuízos devido às geadas. O estudo, intitulado GEEadas, permite uma identificação espacial precisa das áreas comprometidas.

Relevância dos Resultados

Os resultados da pesquisa foram publicados na edição de dezembro da revista Remote Sensing Applications: Society and Environment. Marcos Adami, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e um dos autores do estudo, comenta sobre a relevância do trabalho: “Em 2021, enfrentamos uma seca que atrasou o plantio da soja no Paraná e, consequentemente, o do milho. Em junho, a geada veio para agravar a situação.” Ele ressalta que a região, normalmente beneficiada por boas chuvas, tem experimentado um clima anômalo nos últimos anos.

Adami desenvolve esse projeto em colaboração com Michel Eustáquio Dantas Chaves, professor da Universidade Estadual Paulista e primeiro autor do artigo. O trabalho contou com o apoio da FAPESP. “Eventos extremos, como as geadas, têm impactos sociais, econômicos e ambientais. Identificar a extensão dos danos é crucial para fornecer informações aos produtores, instituições financeiras e órgãos governamentais. O método desenvolvido traz precisão e diminui as incertezas”, detalha Chaves.

Desempenho do Setor Agrícola

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas atingiu 345,6 milhões de toneladas em 2025, um aumento de 18% em relação a 2024, o que representa um recorde histórico. Os grãos de arroz, milho e soja correspondem a 93% da produção total e 88% da área colhida.

O Paraná, reconhecido como o segundo maior produtor de grãos do Brasil, atrás apenas de Mato Grosso, teve sua produção de milho em 2025 estimada em 141,6 milhões de toneladas, também um recorde. No ciclo 2019/2020, a produção foi de cerca de 103 milhões de toneladas, com 75% desse total proveniente da segunda safra, que está mais suscetível a riscos climáticos, como a ocorrência de geadas.

Para validar a metodologia, os pesquisadores realizaram uma comparação dos dados do mapeamento com informações oficiais da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento e dados fornecidos por seguradoras. “O sensoriamento remoto é uma ferramenta que complementa as análises de campo, proporcionando uma visão abrangente das áreas afetadas”, finaliza Chaves.

Além disso, Adami menciona que um trabalho em conjunto com a Companhia Nacional de Abastecimento está em desenvolvimento nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo, visando aprimorar as metodologias e tornar as estimativas de safra cada vez mais rigorosas.

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