Prioridade para Comunidades Terapêuticas

No ano de 2025, o Fundo Antidrogas do Distrito Federal (Funpad-DF) alocou 100% de seus recursos para financiar comunidades terapêuticas (CTs). Um estudo conduzido pelo Grupo de Pesquisa e Saúde Mental da Universidade de Brasília (UnB) revelou que mais de R$ 2,46 milhões foram utilizados exclusivamente para essas instituições privadas, negligenciando outras áreas da rede pública de saúde. Em 2024, o valor destinado foi superior a R$ 1,66 milhão.

Os dados, acessíveis no Portal da Transparência, evidenciam uma tendência persistente de concentração de recursos nas CTs, que já dura mais de uma década. A pesquisa analisou os repasses do Funpad entre 2012 e 2025 e constatou que o montante total repassado às CTs alcançou aproximadamente R$ 33,36 milhões, configurando-se como um fundo que serve “das e para as” comunidades terapêuticas, operando à margem dos princípios da Reforma Psiquiátrica.

Críticas ao Modelo das CTs

Pedro Henrique Antunes da Costa, coordenador do grupo de pesquisa e professor de Psicologia da UnB, afirma que as CTs se assemelham a uma mistura de “manicômios, prisões, igrejas e senzalas”. Segundo ele, essas instituições têm como alvo principal a população negra e de baixa renda, submetendo-a a condições degradantes.

“Em 2025, além dos montantes mencionados, o Funpad também repassou cerca de R$ 47 mil à Secretaria da Fazenda, provavelmente para despesas internas, o que significa que 100% da verba destinada a entidades foi direcionada para CTs”, explica.

As entidades beneficiadas em 2025 incluem o Centro de Reintegração Deus Proverá, o Desafio Jovem de Brasília e o Instituto Abba Pai, entre outros. A instituição Transforme – Ações Sociais e Humanitárias recebeu quase R$ 110 mil desse total.

Desassistência à saúde pública

Os dados de 2023 indicam repasses de R$ 3 milhões para 11 comunidades terapêuticas, com uma média de R$ 283 mil para cada uma. Cada CT também recebe R$ 1 mil por vaga, o que implica que o Conselho de Políticas sobre Drogas (Conen-DF), por meio do Funpad, financiou em média 23 vagas por mês, totalizando 283 ao longo do ano.

Especialistas e órgãos de fiscalização alertam que esses repasses refletem uma escolha política do Governo do Distrito Federal em favor do modelo de CTs, que é frequentemente criticado por priorizar o isolamento e a imposição de doutrinação religiosa.

Carolina Barreto Lemos, perita do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT), ressalta que essa priorização é alarmante. “Esse quadro evidencia a escolha do poder executivo distrital em apoiar um modelo de atuação que se baseia na cura por conversão religiosa, no isolamento das pessoas em áreas afastadas e na imposição de trabalho não remunerado”, afirma.

Consequências da Transferência de Recursos

Segundo Lemos, a transferência de recursos gera impactos diretos no serviço público. “Além de legitimar um modelo que viola direitos humanos, a consequência mais evidente é a desassistência das pessoas com necessidades de saúde relacionadas ao uso de drogas”, analisa.

A institucionalização nas CTs prejudica o investimento necessário em serviços públicos de saúde e assistência social, criando um ciclo vicioso que fragiliza as estruturas do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (Suas).

A carência de serviços públicos é notável, com apenas duas residências terapêuticas no Distrito Federal e uma cobertura deficiente de Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

Propostas para Melhorar a Gestão de Recursos

Para Lemos, é crucial investir em políticas transversais. “O orçamento destinado à política de drogas deveria ser utilizado em estratégias de cuidado alinhadas com o SUS, o Suas e os princípios da Reforma Psiquiátrica”, defende.

A especialista enfatiza a importância de fomentar a autonomia dos indivíduos. “Investimentos em serviços da Raps, políticas de moradia, trabalho, renda e ações voltadas à educação e cultura são fundamentais para fortalecer a cidadania e atender de forma eficaz às demandas de quem atualmente é direcionado às CTs”, conclui.

Controle Social e Políticas de Financiamento

A gestão do Funpad-DF é feita pelo Conselho de Políticas sobre Drogas (Conen-DF), que enfrenta críticas pela falta de paridade em sua composição e pela predominância das CTs nas decisões. Apenas três dos 16 membros do conselho representam a sociedade civil organizada, enquanto as comunidades terapêuticas têm assento assegurado.

Essa situação é descrita como um “controle social às avessas”, onde o conselho atua em benefício das entidades privadas que utilizam o fundo público.

Histórico de Violações em CTs

Fiscalizações anteriores em CTs revelaram um panorama alarmante de violações de direitos humanos. Um relatório de 2017 apontou práticas associadas à tortura, como a contenção química com medicamentos administrados sem supervisão médica.

As condições de trabalho em muitas CTs também são problemáticas, onde internos frequentemente são obrigados a realizar tarefas manuais sem remuneração. Além disso, o controle rígido das comunicações limita a liberdade dos acolhidos.

Em inspeções recentes, foram encontrados indícios de cárcere privado e apropriação indébita de benefícios sociais, como o Bolsa Família, evidenciando a falta de um plano de atendimento individualizado para os internos.

Respostas da Secretaria de Justiça

A Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do DF (Sejus-DF) foi abordada para comentar sobre a exclusividade dos repasses do Funpad para CTs, e informou que as propostas são aprovadas pelo Conen-DF, seguindo a legislação vigente. A pasta também mencionou projetos voltados à capacitação e orientação, como o Caminho Seguro, executado pela organização Transforme.

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