Uma despedida que foge do convencional
O funeral de Regina Célia parecia o de qualquer outra pessoa: flores, lágrimas e orações preenchiam o ambiente. Mas a tristeza dividia espaço com uma celebração inesperada. Em vez do silêncio habitual, samba e cerveja marcaram a despedida, transformando o adeus em um tributo à vida que Regina viveu intensamente.
A família decidiu homenagear a matriarca de maneira única, incluindo detalhes que refletiam seu gosto e personalidade. Skol estava presente nas bebidas servidas, e um banner com sua foto foi preparado especialmente para a ocasião. A organização contou com a ajuda dos amigos da quadra onde a família vivia, que emprestaram champanheiras para manter as bebidas geladas e garantir que a atmosfera festiva fosse mantida.
O samba como elo de afeto e memória
O samba, gênero musical tão querido por Regina, ganhou protagonismo na cerimônia. Marcelle Pinheiro, filha da homenageada, pediu que uma amiga levasse uma caixa de som para o evento, enquanto a família montou uma playlist com as músicas preferidas da mãe.
“Ao invés de chorar a morte dela, vamos celebrar a vida que ela teve”, explicou Marcelle, resumindo o espírito do encontro que reuniu familiares e amigos em um momento marcado pelo carinho e pela celebração.
Uma trajetória marcada por união e desafios
Regina Célia era conhecida pelo acolhimento e pela alegria que transmitia. Suas filhas, Marcelle Cristine e Márcia Cristina, destacam o quanto a mãe gostava de cozinhar e de reunir a família, sempre mantendo todos unidos.
Junto do marido, Antônio Pinheiro, Regina construiu uma história sólida. O casal teve três filhos: Marco Aurélio, Márcia Cristina e Marcelle Cristine. Iniciaram sua vida familiar no Rio de Janeiro, onde nasceram os dois primeiros filhos, antes de se mudarem para Brasília em busca de novas oportunidades.
Leia também: Multidão Marca Ato Pró-Lula em Brasília e Rio com Forte Presença Artística
Leia também: Primavera e Inclusão: Fiocruz Brasília Planta Ipê-Branco em Ação pela Acessibilidade
O início na capital federal foi difícil. Antônio passou por diversas ocupações até abrir seu próprio negócio. A família chegou a cogitar voltar ao Rio de Janeiro, mas um amigo próximo, Toninho, sugeriu que Antônio abrisse uma padaria. Essa decisão mudou o rumo da vida deles, firmando a permanência em Brasília, onde nasceu a caçula Marcelle.
Raízes cariocas e tradição familiar
Mesmo distantes do Rio, o casal manteve laços estreitos com familiares na cidade natal. Durante as férias escolares, a família costumava passar um mês no Rio, fortalecendo os vínculos afetivos entre gerações e mantendo viva a tradição carioca.
Por trás da postura séria, Antônio tinha um lado brincalhão. As filhas recordam que, todo Natal, ele ligava para amigos da agenda telefônica fazendo pegadinhas antes de desejar boas festas.
O afeto do casal também se manifestava na relação com os netos. Arthur, filho de Marcelle, chamava o avô com uma expressão carinhosa: “Meu camaradinha, meu fiel companheiro”.
Homenagens que seguem a personalidade de cada um
Dois anos após a perda de Regina, a família se reuniu para homenagear Antônio Pinheiro, que faleceu em 4 de outubro de 2023, aos 80 anos, após lutar contra um câncer. A cerimônia seguiu a mesma linha de respeito às preferências pessoais.
Ao contrário da esposa, Antônio preferia a cachaça, que ele chamava de “quentinho”, e tinha uma paixão por Coca-Cola. Por isso, durante o funeral, foram servidas cachaça Seleta e Coca-Cola, mantendo viva a memória de seus pequenos hábitos.
Leia também: Caio Collet estreia na Stock Car ao lado de Felipe Massa em Brasília: desafio e parceria
Leia também: Feira de Ciências, Arte e Cultura do CEF 01 de Sobradinho destaca protagonismo estudantil
Regina Célia faleceu em 23 de setembro de 2021, aos 77 anos, vítima de um problema cardíaco durante a pandemia de Covid-19. Entre as duas perdas, ficou uma história de 52 anos de companheirismo e cumplicidade entre o casal.
Acolhimento das emoções no processo de luto
A psicóloga Aline Gomes enfatiza a importância de permitir-se sentir todas as emoções que acompanham o luto, sem pressa ou cobrança para superar a ausência. “Luto não tem prazo”, lembra a especialista, reforçando que cada pessoa vive esse processo de forma única.
Cumplicidade e memórias que permanecem
Mais do que demonstrações explícitas, Regina e Antônio compartilhavam uma cumplicidade silenciosa, marcada pela proximidade e pela união. A neta Maria Luíza Pinheiro ressalta que o afeto do casal estava presente na maneira como permaneciam juntos, mesmo sem grandes gestos.
Após a morte de Regina, Antônio enfrentou a ausência da companheira com dificuldade, ficando debilitado. As cinzas do casal foram espalhadas em uma mangueira que ainda permanece de pé, símbolo da memória e do vínculo que resistem ao tempo.
Entre histórias e saudades, a família transformou a dor da perda em uma celebração da vida e do amor que permanecem vivos, mostrando que é possível encontrar formas sensíveis de lidar com o luto.

