A fusão entre sonho e realidade em “Ana, en Passant”
O filme “Ana, en Passant” consegue um resultado impressionante ao combinar um realismo sutil com uma atmosfera que flerta com o onírico. Essa mistura surge do encontro entre duas mulheres, Ana e Alice, que parecem ser a mesma pessoa — uma fusão que remete às palavras-valise, como se Joyce as tivesse unido em Analice.
O que chama atenção é o tempo dedicado à produção e a quantidade de profissionais envolvidos. São 60 animadores que colaboraram para dar vida a essa obra coletiva, que levanta questionamentos sobre autoria. Durante um debate, a diretora Fernanda Salgado revelou estar segura de sua visão, ainda que reconheça o papel fundamental das múltiplas contribuições no resultado final.
O espelho do Outro e a busca por si mesmo
Ao assistir ao filme, especialmente na cena do encontro entre Ana e Alice, uma lembrança se impõe: a obra remete à busca pela identidade, representada pelo encontro com alguém tão parecido que sugere uma fusão. Essa ideia faz pensar em “A Dupla Vida de Véronique”, de Krzysztof Kieslowski, com Iréne Jacob no papel principal.
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Esse encontro simboliza a busca interior, amplificada pelo ambiente onírico onde a lógica própria do sonho conduz a narrativa. A união da animação com a vídeo arte enriquece o projeto, tornando as personagens — Ana, Alice (ou Analice) e o carteiro-filósofo vivido por Carlos Francisco — cheias de humanidade, sem cair na artificialidade.
Curta-metragens que exploram memórias e territórios afetivos
Na primeira noite da competição, dois curtas de diretores iniciantes chamam atenção. “Mariposa (RN)”, dirigido por Alexandre Américo e Pedro Vitor, se passa nas dunas de Santa Rita, onde dois personagens habitam um espaço de memórias, sob a areia branca agitada pelo vento. Filmado em preto e branco, o curta privilegia o sensorial em detrimento da narrativa tradicional.
Já “Vejo Você de Repente (CE)”, de Aída da Costa, mergulha em uma memória mais concreta relacionada ao pai da diretora. Ele, como ela descreve, “sem aviso prévio, decide não continuar”. Trinta anos depois, a cineasta reconstrói essa experiência através de fragmentos esparsos, revelando ruínas e restos que funcionam como ponto de partida para uma reconstrução imaginária do passado, como numa arqueologia afetiva.

