Cenário de Incerteza no Mercado Citrícola
O Brasil dá início à safra de laranja 2026/27 envolto em incertezas acerca de preços, contratos e capacidade de absorção pela indústria. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o ambiente atual apresenta uma oferta ainda elevada, porém pressionada por fatores climáticos e fitossanitários. Neste começo de ciclo, a visibilidade nas negociações é baixa.
No coração da produção, que abrange o cinturão citrícola de São Paulo e o Triângulo Mineiro, responsável pela maior parte da colheita nacional, o mercado ainda carece de definições sobre volumes e preços. A expectativa é que as transações se intensifiquem apenas em maio, com a divulgação de novos dados oficiais de safra pelo Fundecitrus, que tradicionalmente orienta os contratos entre produtores e a indústria.
Resultados Anteriores e Impactos Climáticos
A indefinição surge após o fechamento da safra 2025/26, que totalizou 292,94 milhões de caixas de 40,8 quilos, um aumento de 26,9% em comparação ao ciclo anterior. Contudo, esse número ficou 6,9% abaixo do que havia sido inicialmente projetado, refletindo perdas significativas ao longo da temporada. Apesar disso, o desempenho se destaca entre os maiores da história da citricultura brasileira.
A safra anterior sofreu os efeitos de um déficit hídrico e da propagação do greening, a principal doença que afeta a cultura. No cinturão citrícola, as chuvas acumuladas entre maio de 2025 e março de 2026 totalizaram 1.135 milímetros, cerca de 13% a menos do que a média histórica, afetando principalmente o norte paulista e o Triângulo Mineiro.
As perdas foram consideráveis, com uma taxa média de queda de frutos atingindo 23,2%, superando as expectativas iniciais e resultando em uma perda estimada de 88,49 milhões de caixas. Deste total, 49,59 milhões de caixas foram atribuídas ao greening, que continua a ser um fator crítico que impacta a produtividade nos pomares.
Tendências e Expectativas para a Nova Safra
Para a safra de 2026/27, a expectativa é de estabilidade ou uma leve queda na produção, apesar de o volume se manter elevado. O ciclo deverá seguir um padrão tardio, com uma concentração maior na colheita da segunda florada, criando incertezas quanto à oferta ao longo da temporada.
Do lado da demanda, a atenção se volta para o mercado internacional de sucos. O Brasil, que lidera a produção e exportação mundial, começa este ciclo com estoques considerados confortáveis, mas enfrenta desafios no escoamento, especialmente para a Europa, que é um dos principais destinos das exportações. Esse contexto limita a capacidade de absorção da nova safra e diminui o poder de negociação dos produtores.
A laranja pera, em abril de 2026, tem sido vendida em média a R$ 28,76 por caixa no mercado paulista, considerado um patamar moderado em relação aos custos de produção e aos riscos sanitários em crescimento, que afetam a rentabilidade no campo.
Brasil e a Liderança na Citricultura Global
O Brasil se destaca no cenário mundial da citricultura, respondendo por aproximadamente 32,8% da produção global de laranja e 62% do suco consumido no mundo. Com cerca de 800 mil hectares dedicados ao cultivo, a produção está concentrada principalmente no eixo de São Paulo e Minas Gerais, embora haja uma presença significativa também em estados do Nordeste.
Neste contexto, os produtores iniciam o novo ciclo sem referências consolidadas de preços, dependendo cada vez mais do comportamento do setor industrial e das exportações. Em um cenário de custos elevados e riscos fitossanitários crescentes, a definição dos contratos nas próximas semanas será crucial para a dinâmica da safra 2026/27.

