O Importante Processo de Restauração
O Painel Educação, reconhecido como um ícone do compromisso do Brasil com a educação pública, está em sua fase final de restauração, com previsão de entrega para o fim de maio. Situado no 9º andar do edifício sede do Ministério da Educação (MEC) em Brasília, essa obra da talentosa artista Gilda Reis (1928-2017) possui um valor histórico, artístico e cultural inestimável, sendo uma parte essencial do patrimônio arquitetônico da capital federal.
Esse painel é um afresco, uma técnica que consiste em pintar diretamente na parede. Encomendado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) durante a construção de Brasília, a obra de Gilda Reis apresenta uma narrativa visual que contrasta duas realidades distintas: de um lado, estudantes uniformizados e radiantes; do outro, uma mãe com seus filhos descalços, com expressões que transparecem tristeza e desilusão. Com cerca de 15 metros quadrados, o painel é uma poderosa expressão artística que destaca as desigualdades sociais e ressalta a função transformadora da educação. Embora o mural tenha recebido atenção no passado, ao longo dos anos sofreu com descaso e desprezo.
A Restauração e a Parceria com a UFPel
A responsabilidade pela restauração do Painel Educação foi atribuída à Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Essa colaboração se dá por meio de um termo de execução descentralizada (TED) e faz parte do Programa Multiações para o Patrimônio Cultural, do curso de conservação e restauração de bens culturais móveis da universidade. Embora a finalização da obra estivesse prevista para o final do primeiro semestre de 2026, os esforços conjuntos têm acelerado o processo, buscando entregar a obra restaurada em maio.
A equipe multidisciplinar da UFPel, composta por especialistas em restauro e conservação, traz uma vasta experiência, incluindo a recente restauração de 20 obras que foram vandalizadas no Palácio do Planalto em janeiro de 2023. Este trabalho é realizado por profissionais com expertise em pintura mural, pesquisa histórico-artística, conservação preventiva e documentação científica, garantindo que cada detalhe seja cuidadosamente tratado.
A Importância da Artista e seu Legado
Sobre a importância de Gilda Reis, Roberto Heiden, professor de história da arte no Departamento de Museologia, Conservação e Restauro (DMCOR) da UFPel, destaca a conexão entre a artista e o movimento modernista brasileiro, que teve grande influência ao longo do século 20. Ele enfatiza que Niemeyer sempre valorizou as artes e fez parcerias com muitos artistas, e que a obra de Gilda é um reflexo desse contexto histórico. “O mural Educação foi pintado no início da década de 1960, um período em que outros artistas também estavam criando obras significativas na cidade. O convite de Niemeyer para que Gilda realizasse esse mural traz um elemento adicional de relevância histórica”, explica Heiden.
Segundo o especialista, Gilda Reis transitou com naturalidade entre as formas abstratas e figurativas, o que é evidente no mural Educação. Sua capacidade de assimilar diferentes referências estilísticas, como o cubismo e o expressionismo, é característica comum entre os artistas do modernismo brasileiro. No entanto, o aspecto social da pintura não pode ser esquecido: ela retrata crianças em idade escolar, algumas em uniformes, outras descalças, simbolizando a luta pela justiça social e a necessidade de assistência estatal às crianças mais vulneráveis.
Reflexões sobre a Artista e sua Obra
Aos 80 anos, Marta Reis da Fonseca, filha de Gilda, recorda com afeto a diversidade de sua mãe, ressaltando que não é possível rotulá-la. “Minha mãe era muitas Gildas: algumas fascinantes, outras apaixonantes, e isso se reflete em suas obras. Ela fez arte religiosa, figuras abstratas e muito mais”, comenta Marta, enfatizando a singularidade da trajetória artística de Gilda.
Gilda Reis, nascida no Rio de Janeiro, teve uma carreira longa e impactante, participando de mais de 50 exposições, tanto no Brasil quanto no exterior. Estudou com renomados artistas e, ao longo de sua vida, deixou um legado indelével com murais em várias partes do país, apesar de muitos deles terem sido destruídos. Mesmo após seu retorno ao Brasil em 1982, Gilda continuou a contribuir para o cenário artístico até sua última exposição em 1999.

