Mostra de Curtas Brasília: 66 Anos
A Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB) está promovendo a Mostra de Curtas Brasília: 66 anos, trazendo uma seleção de documentários que abordam a formação do Distrito Federal e suas complexidades sociais. A iniciativa, que ocorre todas as quartas-feiras às 12h até o dia 29 de abril, é organizada pelo bibliotecário Jefferson Dantas e curada pelo jornalista Júlio Camargo.
Durante o mês de abril, frequentemente associado ao aniversário da capital, a veiculação de propagandas que exaltam a inauguração de Brasília como um marco do urbanismo moderno é comum. No entanto, por trás dessa narrativa gloriosa, existem realidades que revelam uma cidade marcada por exclusões e contradições.
Em 2024, o Brasil de Fato DF destacou documentários que evidenciam as discrepâncias entre a expectativa e a realidade na capital, inspirando a curadoria da mostra a atualizar o repertório com curtas que ficaram de fora dessa discussão. O foco é oferecer uma perspectiva abrangente sobre Brasília, desde seus mitos fundadores até a realidade de desigualdade social que persiste.
Conforme explica Jefferson Dantas, “em abril, a construção de Brasília é um tema que deve ser amplamente discutido na academia”. A curadoria organizou os filmes de maneira cronológica, permitindo uma reflexão sobre a ocupação do espaço urbano no DF e suas implicações sociais. No primeiro dia, foram exibidos dois curtas publicitários da época da construção, seguidos de outras obras da década seguinte, que já ressaltavam as contradições dessa nova cidade.
Os documentários, como “Brasília, contradições de uma cidade nova” (Joaquim Pedro de Andrade, 1967) e “Brasília Segundo Feldman” (Eugene Feldman e Vladimir Carvalho, 1979), retratam o processo de construção dos edifícios centrais e a higienização artificial dos problemas sociais, resultando em um plano de segregação que deslocou trabalhadores para áreas periféricas, reconhecidas como cidades-satélites. Além disso, as condições de trabalho durante a construção da capital foram alarmantes, com jornadas que chegavam a 16 horas, culminando em revoltas como o Massacre da Pacheco Fernandes em 1959.
Reflexões sobre a Ceilândia e suas Periferias
No segundo encontro da mostra, as exibições focaram nos eventos pós-anos 1970. Os documentários “Invasores ou Excluídos” (Cesar Mendes e Dulcídio Siqueira, 1989) e “Rap, o canto da Ceilândia” (Adirley Queirós, 2005) mostram a consolidação da Ceilândia como um importante polo periférico. Outro filme, “Cata(dores)” (Webson Dias, 2011), discute as realidades dos catadores do antigo lixão da Estrutural, destacando a formação de uma identidade periférica no DF. Esses filmes não apenas abordam a exclusão social e territorial, mas também a notável capacidade de organização das comunidades periféricas em suas lutas sociais.
Durante o terceiro dia, a programação trouxe à tona a importância do núcleo tombado como patrimônio material, que enfrenta os desafios da exclusão social, exacerbados por políticas segregacionistas. O que se observa nos filmes “Kiss kiss Kissinger” (Jimi Figueiredo, 2007) e “Badernaço: dia que não acabou” (Marcelo Emanuel e Eliomar Araújo, 2008) é que, apesar da intenção de afastar protestos do centro, os movimentos sociais continuam a ganhar força.
Adicionalmente, foram exibidos “Rodoviária” (Cesar Mendes, 1990) e “No olho da rua” (Maria Lúcia Pinto Leal, 1991), que apresentam um retrato crítico da marginalização de crianças e adolescentes na Rodoviária do Plano Piloto.
Documentários sobre Lutas Sociais e Questões Ecológicas
No encontro desta quarta-feira (22), será apresentado o documentário de longa-metragem “Ressurgentes” (Dácia Ibiapina, 2013), que documenta os movimentos sociais entre 2005 e 2013, incluindo os protestos contra a corrupção no governo de José Roberto Arruda e a especulação imobiliária no Noroeste, uma área sagrada para comunidades indígenas.
O fechamento da mostra contará com documentários que discutem questões ecológicas e ambientais no Distrito Federal. O curta “Agrofloresta no meio do caminho” (Lorena Figueiredo, 2023) explora as iniciativas de agroflorestas urbanas no Plano Piloto, promovendo a sustentabilidade. “Águas emendadas: uma constelação de nascentes” (Adeilton Oliveira e Robson Eleutério, 2024) destaca a importância da preservação na Estação Ecológica de Águas Emendadas, enquanto “Incêndios, poluição e ciência cidadã no Distrito Federal” (Carlos Henke de Oliveira, 2025) aborda a problemática das queimadas.
Jefferson Dantas enfatiza que a seleção de filmes e debates realizados durante os encontros têm um caráter formativo, proporcionando uma nova visão sobre os conflitos urbanos contemporâneos. Elementos como a moradia se destacam nas narrativas, como observado pelos diretores que conseguiram captar a realidade da cidade em diferentes épocas.
O professor Benny Schvarsberg, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, observa que a contradição central de Brasília reside na coexistência de dois mundos: o modernismo do Plano Piloto e a realidade das periferias, representadas por carroças, simbolizando uma interdependência que não deve ser ignorada. Ele conclui que a urbanização em Brasília ao longo das últimas cinco décadas criou um espaço marcado pela desigualdade.
Serviço
Mostra de curtas Brasília 66 anos
Data: toda quarta-feira, às 12h, até 29 de abril
Local: Auditório da BCE, 1º subsolo da Biblioteca Central da UnB.

