Mariana Mazzucato e o Valor Público do Carnaval
A missão internacional de pesquisa de campo promovida pelo Ministério da Cultura (MinC) trouxe ao Brasil a renomada economista Mariana Mazzucato, especialista em valor público nas artes e na cultura. O evento, realizado no último domingo (8) na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, reuniu pesquisadores de diversas áreas, abordando temas como o Carnaval, a economia criativa e os valores sociais gerados por essa grandiosa festividade. Durante a reunião, Mazzucato enfatizou a importância de se olhar além das métricas tradicionais, destacando que o Carnaval gera um valor que ultrapassa os números: “Ele promove coesão social, habilidades e redes de conhecimento, o que representa um investimento de longo prazo”, afirmou. A economista alertou ainda para a necessidade de se distinguir entre custo de investimento e o que realmente sustenta o bem-estar social, argumentando que, na verdade, os custos da inação são maiores do que os da ação.
Entre os participantes do encontro estavam Alexandre Santini, presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa; Rafaela Bastos, gestora pública e passista da Estação Primeira de Mangueira; e outros especialistas da UFRJ e do BNDES. Eles contribuíram com suas experiências e conhecimentos sobre as complexidades que cercam o Carnaval, que muitas vezes não são refletidas nas políticas públicas.
Desafios da Economia do Carnaval
Um dos pontos altos da discussão foi a apresentação de Rafaela Bastos, que introduziu o conceito de “microeconomia das passistas”. Essa abordagem revela como as redes de trabalho e a circulação de renda sustentam a participação de mulheres e jovens no Carnaval, um aspecto frequentemente ignorado nas estatísticas oficiais. “Não somos reconhecidos como uma atividade econômica. Não temos um CNAE específico para escolas de samba ou para profissionais como mestres-salas ou porta-bandeiras, o que resulta em problemas de formalização e proteção social”, destacou Rafaela.
Ela também apresentou o projeto Carnaval de Dados, que visa tornar visíveis os investimentos e a operação urbana relacionadas à festa, categorizando seus impactos em três dimensões: serviços, infraestrutura e desenvolvimento humano. A pesquisadora Lia Calabre complementou a discussão, afirmando que o Carnaval deve ser analisado dentro de um contexto mais amplo das políticas públicas de cultura. “O Carnaval é um fenômeno cultural que revela dinâmicas e desafios importantes para formular e avaliar as políticas culturais”, explicou.
Integrando Políticas Culturais ao Desenvolvimento Sustentável
Mariana Mazzucato, ao abordar o conceito de valor público, sublinhou a importância de combinar indicadores econômicos com uma análise de longo prazo dos efeitos sociais e culturais do Carnaval. “É essencial que não desconsideremos os números estáticos. Eles são úteis, mas precisamos ir além para captar o real impacto do Carnaval na vida das pessoas e nas capacidades públicas”, argumentou.
A secretária de Economia Criativa do MinC, Cláudia Leitão, destacou que o Carnaval revela os limites de uma visão setorial da cultura. “Precisamos reconhecer que o Carnaval mobiliza trabalho, conhecimento e inovação social. Este reconhecimento é crucial para que a cultura se torne uma política pública estruturante para o desenvolvimento”, declarou.
A secretária Roberta Martins complementou, enfatizando a importância de transformar o conhecimento gerado nas comunidades em informações relevantes para a formulação de políticas públicas. “Escutar com atenção é fundamental para que possamos criar políticas mais justas e conectadas com a realidade”, afirmou, ressaltando que o Carnaval é um exemplo de como soluções podem surgir no âmbito local, mesmo antes de serem formalmente reconhecidas.
Caminhos para o Futuro do Carnaval e da Cultura Brasileira
Como anfitriã do evento, a Fundação Casa de Rui Barbosa se destacou como um espaço estratégico para articular pesquisas e políticas públicas. “Pensar o Carnaval à luz da pesquisa é reconhecer seu papel na produção de conhecimento sobre a realidade brasileira. Instituições como a nossa têm a responsabilidade de acolher estas reflexões e converter em políticas efetivas”, disse Santini.
A missão, que inclui atividades no Rio de Janeiro, Brasília e Salvador, visa consolidar evidências e recomendações para políticas culturais. O próximo passo será uma conferência magna sobre o valor público das artes e da cultura, marcada para os dias 9 e 10 de fevereiro, em Brasília e Salvador, respectivamente. A iniciativa reflete o esforço do governo brasileiro em reposicionar a cultura como um eixo estratégico para o desenvolvimento nacional.
Mariana Mazzucato: Uma Referência em Economia e Cultura
Mariana Mazzucato é professora na UCL e diretora do Institute for Innovation and Public Purpose. Seus livros, como “O Estado Empreendedor” e “A Grande Falácia”, abordam temas cruciais relacionados ao papel do Estado na economia e na cultura. Seu trabalho contínuo provoca reflexões importantes sobre como as políticas culturais podem e devem ser moldadas para beneficiar a sociedade como um todo.
