A Paixão dos Relojoeiros em Brasília
Em Brasília, o tempo parece voar para muitos, mas há quem dedique horas a consertá-lo. Em um pequeno quiosque amarelo na 514 Sul, João Carlos Lima, de 71 anos, faz das engrenagens sua vida. Sua jornada começou aos 12 anos, quando, intrigado com um relógio quebrado de seu irmão, decidiu abrir a mala que o guardava e mexer nele. “Acabei quebrando ainda mais, mas foi ali que tudo começou”, relembra o proprietário da Relojoaria do Carlos. Aos 22 anos, João se aprofundou na paixão por relógios. Para se especializar, investiu em um curso por correspondência no Instituto Universal Brasileiro, que durou seis meses. “Enviei todas as respostas pelos Correios e, ao final, recebi o diploma”, conta.
João, que começou sua carreira em 1978 ao lado do cunhado, abriu sua própria loja em 1980. “São 45 anos de dedicação a esse ofício. Porém, só após 30 anos, consegui me sentir verdadeiramente seguro no que fazia”, revela. Ele lembra de desafios e aprendizados ao longo da carreira, como uma vez em que recebeu um relógio que não conseguia consertar. Após oito dias de tentativas, o cliente deixou-o cair no chão e, para sua surpresa, o relógio voltou a funcionar. “Inacreditável, não?”, ri João, mostrando que o encanto por seu trabalho nunca se apagou. “A cada dia, mais me apaixono. Não me canso de montar e desmontar relógios”, finaliza com um sorriso.
Relojoaria Dantas: Uma Tradição Familiar
Uma outra história emblemática é a da Relojoaria Dantas, aberta por Francisco Dantas logo após a inauguração de Brasília, em 1963. O amor pela relojoaria é algo que permeia a família, já que o pai e os irmãos também eram relojoeiros. Após o falecimento do patriarca, foram os filhos e a esposa que assumiram a loja. “Quando meus filhos eram pequenos, eu ficava aqui com eles. Isso foi importante, pois eles viam o pai e os funcionários trabalhando e aprenderam observando”, conta Edinalva Dantas. Francisco Dantas Júnior, de 46 anos, atualmente gerencia a loja com dedicação. Ele descreve seu interesse em consertar relógios como algo natural, influenciado pela facilidade que sempre teve com mecanismos. “Desde pequeno, desmontava brinquedos e meu pai sempre me incentivou”, explica.
O irmão de Francisco, seguindo o mesmo caminho, dividiu as funções com ele: “Eu me especializei em relógios antigos, enquanto meu irmão ficou com os de pulso”.
A História de Carlos Ferreira: Uma Herança de Amor
Em Planaltina de Goiás, Carlos Ferreira, começou sua relação com os relógios aos 11 anos na relojoaria do pai. Desde a infância, passava as tardes admirando os despertadores e suas engrenagens. “Era um mundo pequeno e preciso que me encantava”, lembra. Aos 13 anos, decidiu aprender de fato a profissão e não parou mais. Hoje, sua relojoaria, que já tem 27 anos, é um reflexo de seu amor pelo ofício. “Eu escuto o relógio e consigo identificar o problema antes mesmo de desmontá-lo. Isso é resultado de experiência, mas também do amor pelo que faço”, diz Carlos.
Ele destaca que cada relógio traz consigo uma história. “Alguns pertencem a pais, avôs ou padrinhos. Cada um possui um significado especial, e cuidamos não só dos relógios, mas também das memórias das pessoas que os trazem até nós”, afirma. Carlos recorda de um caso especial em que restaurou um relógio que estava na família há 85 anos. “O valor comercial era em torno de R$ 2 mil, mas como mensurar o sentimento? É herança, é memória, é afeto”, explica.
Desafios e Oportunidades na Relojoaria
Segundo Carlos, os últimos anos foram de grande crescimento para o setor. A pandemia trouxe uma transformação significativa, elevando a valorização dos relógios de luxo como itens de desejo e investimento. “Houve um período em que a mercadoria estava escassa. Pessoas chegavam a pagar até R$ 40 mil acima do preço de vitrine para não esperar”, relata. Esse aumento nas vendas impactou diretamente sua assistência técnica, o que é um reflexo do aquecimento do mercado. Entretanto, a escassez de profissionais qualificados é um desafio. “A relojoaria não está acabando, apenas temos uma falta de mão de obra qualificada”, afirma.
A falta de interesse entre os jovens é um dos principais problemas. “Se você convidar 50 jovens para aprender relojoaria, todos recuam. Mas quando falamos de computação, todos querem saber. Acham que vai dar mais dinheiro”, reflete. Apesar disso, Carlos planeja iniciar, no próximo ano, a formação de dois novos aprendizes. “É uma profissão linda, mas que precisa urgentemente de renovação. Vamos tentar trazer novos talentos para essa área”, conclui.
