Desafios na educação profissional em gastronomia

Aprender a cozinhar sem a prática efetiva pode parecer um paradoxo, mas é exatamente isso que os alunos do Centro de Educação Profissional Escola de Sabores Oscar, localizado na 907 Sul, estão vivenciando. Essa instituição, conhecida por atrair aqueles que aspiram a empreender ou mudar de carreira, enfrenta um desafio crucial: a ausência de insumos que inviabiliza as atividades práticas, fundamentais na formação culinária.

A Escola de Sabores Oscar, que integra a rede pública do Distrito Federal, oferece diversos cursos na área gastronômica, com carga horária que varia até 800 horas, incluindo formação técnica em gastronomia, confeitaria e cursos de qualificação profissional. No entanto, os estudantes apontam que a falta de materiais essenciais afeta todas as turmas ao longo do dia, resultando na suspensão das aulas práticas desde fevereiro.

Com a localização na SGAS 907, a Escola de Sabores Oscar é parte do que se denomina Educação Profissional e Tecnológica (EPT), dividindo espaço com o Centro Integrado de Educação Física (CIEF) e a Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação (EAPE). Embora a prática seja um foco central do curso, os alunos relatam que, nos últimos meses, tiveram apenas três aulas práticas em laboratório.

Francisca Rodrigues, de 62 anos, aposentada e aluna do curso, procura incrementar sua renda, pois já vende doces e sonha em expandir seu negócio para a venda de marmitas. “Estamos quase no final do semestre e praticamente não tivemos aulas práticas”, lamenta. Ela destaca que itens básicos como panelas, colheres, pratos e frigideiras estão em falta. O laboratório conta apenas com fogão, forno e batedeira.

“A improvisação se tornou parte da nossa rotina. Já utilizei um saco plástico para pesar ingredientes por falta de material adequado. Cheguei a usar copos descartáveis para medir os ingredientes,” compartilha Francisca. Para ela, a falta de prática representa um obstáculo direto em seu aprendizado. “Se eu precisar desossar um frango, não terei a menor ideia de como fazer isso”, diz.

Eliomar Alencar, uma professora de 48 anos, também frisa que a carência de materiais vai além da falta de insumos e compromete a higiene e a organização no ambiente de aprendizagem. “Estamos dividindo um rolo de massa entre duas turmas. Não temos tábuas ou bowls suficientes. Isso compromete a segurança alimentar. No entanto, somos obrigados a seguir assim, mesmo sabendo que é inadequado”, ressalta.

Helane Araújo, de 42 anos, já ensina receitas nas redes sociais e se inscreveu no curso para profissionalizar seu conteúdo e, futuramente, oferecer cursos sobre preparação de refeições. Contudo, ela aponta que a realidade da sala de aula está distante do que imaginava. “Aprendemos a teoria, mas a prática é quase inexistente. Já cobriram praticamente todos os conteúdos teóricos, mas agora os professores precisam recorrer a vídeos e cartazes para compensar a ausência de prática”, comenta.

Em resposta a essa realidade, os alunos decidiram paralisar as atividades durante uma semana, de 13 a 17 de abril, como forma de chamar a atenção da direção para o problema. Entretanto, relatam que a mobilização não resultou em soluções efetivas.

Apesar das dificuldades, os estudantes elogiam a qualidade dos professores. “Os professores são excelentes, possuem conhecimento profundo. O que falta é a estrutura para que possamos aplicar o que aprendemos”, sintetiza Helane.

As inscrições para os cursos da Escola de Sabores Oscar ocorrem duas vezes ao ano, por meio do site da Secretaria de Educação do DF, com seleção realizada por sorteio.

A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF) foi contatada e confirmou que a unidade possui recursos financeiros alocados para aquisição de materiais e insumos necessários às aulas práticas. “A execução dessas compras é responsabilidade da gestão da escola, que deve seguir os procedimentos administrativos e legais para contratação de fornecedores, conforme as normativas pertinentes”, informou a secretaria.

Além disso, a Coordenação Regional de Ensino se comprometeu a acompanhar a situação em conjunto com a equipe gestora da escola. “A Secretaria garante que tomará medidas administrativas urgentes para assegurar o fornecimento de insumos necessários e garantir que as aulas práticas possam prosseguir sem prejuízo ao aprendizado dos alunos”, afirmou.

A direção da escola também ressaltou que as aulas teóricas são igualmente importantes para a formação dos alunos, e explicou que a aquisição de insumos requer a avaliação de fornecedores e a elaboração de orçamentos. Segundo a gestão da escola, a diversidade de produtos requeridos torna o processo mais complicado e pode levar mais tempo do que o esperado.

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