Transformações do voto no Distrito Federal desde 2006
Em 2006, Luiz Inácio Lula da Silva venceu o segundo turno no Distrito Federal com 57% dos votos. Naquele cenário, bairros mais pobres como Gama, Ceilândia e Planaltina apresentavam percentuais elevados de apoio ao PT, chegando a 67%, 63% e 62%, respectivamente. Em contrapartida, regiões como Lago Sul e Asa Sul eram dominadas pelo adversário, refletindo uma clara divisão socioeconômica no comportamento eleitoral.
Seis anos depois, o quadro eleitoral mudou profundamente. Em 2022, Lula obteve 41% dos votos no DF, com seus melhores resultados concentrados na Asa Norte (49,7%), Asa Sul e Sudoeste, locais de maior renda média. Por outro lado, Samambaia registrou apenas 36%, e a Estrutural, considerada a área mais pobre do DF, que em 2006 soma 51% de votos para Lula, caiu para 34,7%, tornando-se o pior desempenho para a esquerda na região.
O impacto do abandono da periferia e o voto de direita na alta renda
Uma análise detalhada dos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cruzados com características demográficas como renda, escolaridade, idade e gênero, revela que a esquerda não perdeu a classe média do Plano Piloto, que permanece majoritariamente favorável ao PT. O principal desafio está na perda do eleitor trabalhador da periferia, que será decisivo para a eleição de 2026.
O voto de direita de alta renda no DF não é uma novidade recente trazida por Bolsonaro. Já em 2014, Aécio Neves havia conquistado 61,9% dos votos na capital, atingindo 77% no Sudoeste. O que mudou foi o distanciamento da periferia em relação ao PT, com quedas expressivas entre 2006 e 2018, como a perda de 37 pontos percentuais no Gama e 33 na Ceilândia. Em 2018, Bolsonaro alcançou 70% dos votos na capital, um recorde desde a redemocratização. Embora Lula tenha recuperado 11 pontos em 2022, o crescimento foi desigual, com 15 pontos no Sudoeste e apenas 7,5 na Estrutural.
Os três circuitos do bolsonarismo no Distrito Federal
O bolsonarismo no DF não é homogêneo, mas dividido em três circuitos distintos. O primeiro é o voto de massa na periferia, onde Bolsonaro alcança maioria expressiva: 65% na Estrutural e 64% em Samambaia e Riacho Fundo. Esse eleitor é majoritariamente homem, com idade entre 25 e 59 anos e ensino médio completo, um trabalhador urbano que já votou em Lula no passado.
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O segundo circuito é ideológico e está ligado à elite, refletido nos votos para Bia Kicis (PL), deputada federal mais votada em 2022, e Thiago Manzoni (PL). As maiores concentrações de votos para eles estão em colégios particulares de Águas Claras, Lago Sul e Plano Piloto, mostrando uma correlação entre renda, escolaridade e apoio político.
O terceiro circuito é o evangélico, representado pela votação de Damares Alves (Republicanos) para o Senado, que atingiu 45% dos votos distribuídos por todas as regiões do DF, da Estrutural ao Lago Norte. Esse segmento atravessa as classes sociais e atua como um elo entre os demais circuitos bolsonaristas.
Rachaduras na estrutura bolsonarista local e desafios para 2026
O Distrito Federal deve ser um dos principais palcos da presença bolsonarista em 2026. Bolsonaro cumpre pena domiciliar em um condomínio de elite no Lago Sul, que simboliza o bolsonarismo da alta renda, e sua residência virou ponto de encontro para apoiadores. Flávio Bolsonaro lidera a candidatura presidencial no DF, inicialmente com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis na chapa ao Senado.
No entanto, esse arranjo está se desintegrando. Michelle rompeu com Flávio e indicou que pode desistir da disputa ao Senado, enfraquecendo a ligação do bolsonarismo com o eleitorado evangélico feminino da periferia, um segmento crucial para as eleições. Uma pesquisa do Instituto França, publicada em junho, mostra Lula tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro no DF (41,49% contra 39,7%), em uma capital que deu 70% dos votos a Bolsonaro em 2018 e quase 59% em 2022. O espaço para disputa é real, mas exige esforço.
Estratégias para a esquerda reconquistar votos na periferia do DF
Para a esquerda, a tarefa é recuperar os votos perdidos, que somam cerca de 156 mil em 2022. As maiores perdas estão em áreas como Ceilândia (55 mil votos abaixo do histórico do PT), Taguatinga (38 mil), Gama (27 mil), Samambaia (23 mil), além de Planaltina e Santa Maria. Locais específicos, como o CEM 02 e o CEF 01 do Gama, o CEF Santos Dumont em Santa Maria e escolas públicas da Ceilândia Norte e Taguatinga, refletem o eleitorado de ensino médio da periferia que deixou de apoiar o PT.
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Os dados indicam que a disputa deve se concentrar na periferia oeste e sul, onde cada ponto percentual representa um número maior de votos. A pauta para esses eleitores deve focar em temas econômicos, serviços públicos e presença política, já que esse eleitorado é mais plebiscitário do que ideológico. Além disso, o diálogo com o segmento evangélico feminino é fundamental para recuperar parte do eleitorado perdido, especialmente considerando que o voto de esquerda no DF tem se tornado mais feminino e jovem.
Outro desafio é mobilizar os eleitores que já apoiam a esquerda, mas não comparecem às urnas. A abstenção é maior em regiões como São Sebastião, Paranoá, Itapoã e Estrutural, onde Lula teve melhores resultados em 2022.
Conquistar a maioria em 2026 será difícil, exigindo recuperar três em cada quatro votos perdidos na periferia. No entanto, reduzir a distância do DF em relação ao restante do país, que foi de 15 pontos em 2018 e ainda era de 10 em 2022, pode mudar o cenário eleitoral local, fortalecendo a bancada e a disputa pelo Palácio do Buriti, além de conter o bolsonarismo na capital.
A esquerda do DF passou uma década analisando suas perdas. Agora, os dados apontam claramente onde focar. O restante do trabalho é estratégico e exige atuação efetiva.

