Deterioração dos Recebíveis no Agronegócio
A recente dinâmica do mercado financeiro tem revelado um cenário preocupante para o agronegócio brasileiro. As seguidas quebras de safra, a alta taxa de juros, a exacerbação da alavancagem financeira e a queda nos preços das commodities resultaram em uma deterioração significativa dos recebíveis agrícolas. Embora as expectativas para a safra atual sejam otimistas, o pessimismo no mercado financeiro ainda permanece.
A inadimplência crescente e a onda de recuperações judiciais que afetam empresas e produtores rurais têm contaminado o setor. Isso impactou diretamente instrumentos financeiros como Cédulas de Produto Rural (CPR), duplicatas e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), provocando rebaixamentos nos ratings de emissões e aumento nos spreads financeiros.
Expectativas Desafiadoras para o Setor
O cenário, aparentemente, continuará desafiador. Apesar de um aumento na produtividade das lavouras previsto para 2025, a rentabilidade dos produtores ainda estará sob pressão devido ao crescimento das despesas financeiras. Um relatório da Fitch Ratings, assinado pelos analistas Tomás Araujo e Carolina Yaginuma, aponta que a renda no campo é prejudicada por altos níveis de endividamento dos produtores e pela manutenção de taxas de juros elevadas.
O segundo semestre de 2025 foi marcado pelo rebaixamento de todas as classificações de securitizações do setor pela Fitch, com algumas delas sendo colocadas em “Observação Negativa”, consequência direta da deterioração contínua dos portfolios.
Renegociações e Recuperações no Setor
O relatório da Fitch ressalta que produtores rurais e outros devedores têm seguido a tendência dos últimos semestres de renegociar recebíveis em atraso. Essas renegociações geralmente envolvem o alongamento de prazos, o que pode atrasar a materialização de perdas e aumentar o risco concentrado em períodos futuros, enquanto a situação financeira dos devedores permanece fragilizada.
Dados da Serasa Experian revelam que 1.990 solicitações de recuperação judicial relacionadas ao agronegócio foram protocoladas em 2025, um aumento alarmante de 56,4% em relação ao ano anterior, representando o maior número desde o início da série histórica em 2021. Para Amanda Martins, co-fundadora da Canal Securitizadora, os últimos meses foram particularmente difíceis para o setor. Um caso que chamou atenção foi o pedido de recuperação judicial da Agrogalaxy, que exemplifica as dificuldades enfrentadas.
Impacto nas Emissões e Acessibilidade no Crédito
Segundo Amanda, as operações estão começando a reaquecer, mas ainda estão concentradas nas emissões de empresas maiores. Os spreads financeiros também se ampliaram, atingindo níveis como CDI+6% ou CDI+8%, superiores aos praticados anteriormente. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, observa que operações com risco pulverizado e devedores de alta qualidade ainda conseguem acesso ao mercado a taxas competitivas. No entanto, estruturas mais concentradas ou com histórico de estresse estão sujeitas a prêmios adicionais.
No contexto da atual crise no agronegócio, os títulos mais impactados incluem principalmente as CPRs financeiras, especialmente aquelas emitidas por produtores de médio porte e mais alavancados, além de duplicatas relacionadas à compra de insumos. Lima destaca que os CRAs foram especialmente afetados por essa deterioração dos recebíveis, notadamente em operações lastreadas em CPRs financeiras concentradas.
Reflexos na Cadeia Produtiva e Riscos Futuros
A situação do produtor rural, que é o elo mais frágil da cadeia, tem revelado uma deterioração mais acentuada em CPRs financeiras e duplicatas utilizadas para financiar a produção. Jéssica Alves, especialista da Vert Securitizadora, explica que esses estresses reverberam não apenas no produtor, mas também nas revendas de insumos e outros agentes da cadeia, especialmente quando há inadimplência e renegociações de crédito.
Este estado de deterioração dos recebíveis tornou o mercado mais seleto em relação a novas emissões de CRA. Lima destaca que as novas operações agora requerem maior subordinação, reforço de garantias, gatilhos de proteção mais claros e uma maior pulverização do risco entre devedores. Além disso, os processos de due diligence se tornaram mais rigorosos, com análises detalhadas sobre os devedores e suas interações na cadeia do agronegócio.
Perspectivas para o Futuro
A crescente percepção de risco dentro do setor fez com que investidores demandassem prêmios maiores em algumas emissões, especialmente aquelas que envolvem operações mais concentradas. Apesar do clima desafiador, o mercado não se fechou ao agronegócio, mas a diferenciação entre os emissores e as estruturas tem sido mais clara. Operações com lastros mais pulverizados e garantias robustas continuam acessando o mercado com condições competitivas.
Diante da elevada taxa de endividamento e juros altos, o alongamento da dívida ganhou espaço, especialmente por meio de renegociações privadas e reestruturações extrajudiciais. A Fitch aponta que a tendência de renegociação de recebíveis em atraso persiste entre os produtores rurais e demais devedores. Amanda, da Canal Securitizadora, observa que, nas operações agrícolas, investidores estão preferindo contratos com duração de 3 a 5 anos, considerando a volatilidade dos juros.
