Análise do Retrocesso Americano

No contexto atual em que os Estados Unidos enfrentam tensões no Oriente Médio, um artigo do economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, traz à tona preocupações sobre o impacto desse cenário em áreas cruciais como educação, inovação e infraestrutura. Vale destaca que desde 2003, a nota dos EUA em matemática no exame de avaliação de qualidade da educação, o Pisa, caiu de 483 para 465, ficando abaixo da média da OCDE e a 60 pontos da Coreia do Sul. Além disso, números alarmantes revelam que o volume de patentes da China ultrapassou o dos EUA em 2011 e, em 2024, já é três vezes maior do que o americano. O investimento em pesquisa e desenvolvimento também sofreu uma queda significativa, passando de 67% de financiamento estatal para apenas 18% atualmente.

A infraestrutura nos Estados Unidos, principalmente em estados do Sul, é considerada precária, conforme aponta um relatório da consultoria Eurasia Group, publicado no início deste ano. Essa situação reflete um retrocesso que começou a se desenhar nas décadas de 1970 e 1980, períodos marcados pelo aumento da desigualdade e cortes de impostos para os mais ricos, levando a uma queda na produtividade. Vale destaca que essa insatisfação crescente culminou na ascensão de Donald Trump, evidenciando que, apesar de ser um país forte, grande e influente, os EUA não mantêm mais uma liderança incontestável em muitos aspectos.

O Impacto das Políticas de Trump

Outro ponto abordado por Vale é a geração de energia, onde apesar do setor privado ser responsável pela maior parte dos investimentos em pesquisa e inovação, as universidades – as verdadeiras fontes de ciência de base – têm sido alvo da administração Trump. O economista enfatiza que a China investe massivamente em educação e forma um número significativamente maior de engenheiros, consolidando-se como a capital da inovação mundial.

Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial, complementa a análise afirmando que, apesar de os EUA manterem sua posição de liderança em inovação, decisões recentes sob a administração Trump estão “solapando os pilares da inovação”. Ele menciona cortes de verbas para universidades e instituições de pesquisa, o que pode impactar a capacidade de crescimento do país em pesquisa e desenvolvimento.

O Panorama da Energia e Doenças Estrutural

O Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA cresceu 2,2% em 2025, uma desaceleração em relação à alta de 2,8% em 2024, o que levanta questionamentos sobre a saúde econômica do país. O embaixador Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), não considera que os EUA estejam perdendo a hegemonia, enfatizando que, desde 2000, a Suíça, Suécia, EUA e Cingapura continuam a se destacar no Índice Global de Inovação da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI).

Entretanto, o relatório da Eurasia revela que as tecnologias do século XXI, como veículos elétricos, drones e inteligência artificial, necessitam de uma base comum, que inclui baterias e computação embarcada. A China se destaca nessa área e os EUA estão, segundo o documento, cedendo terreno. A rede elétrica americana está se mostrando inadequada para atender à crescente demanda, especialmente com a expansão de data centers, enquanto a geração de energia elétrica nos EUA permanece estável desde 2000, enquanto a da China saltou de menos de 2 mil terawatts/hora para mais de 10 mil.

Desafios e Intervenções Estatais

A crescente intervenção estatal na economia americana também é vista como um complicador. Vale alerta para a recente decisão de Trump que proibiu agências federais de usar os serviços da startup de inteligência artificial Anthropic, mesmo após acordos para fornecer serviços ao Pentágono. Essa ação é parte de um movimento maior em que Trump busca controlar diversas empresas, o que, segundo críticos, fragiliza a competição e a inovação.

Ricupero reconhece que essas intervenções podem ser prejudiciais, mas acredita que são limitadas a alguns setores e que a economia americana, devido à sua natureza aberta e dinâmica, pode resistir a tais pressões.

Dólar em Declínio e O Futuro

Por fim, as políticas de Trump têm contribuído para o enfraquecimento do dólar como reserva de valor global, que caiu de 70% na década de 1970 para menos de 60% atualmente, segundo Braga. Para Ricupero, Trump representa uma das maiores ameaças às instituições democráticas do país, e as próximas eleições legislativas em novembro serão um teste crucial para o futuro das democracias americanas.

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