Arte Urbana e Cultura Hip-Hop em Ceilândia
Depois de cerca de dez dias de preparação, o mural da estação de metrô Guariroba, em Ceilândia, ganhou vida com o grafite de 30 artistas, acompanhados por voluntários e jovens locais. A iniciativa faz parte do projeto 1000 Cores, que transforma muros em verdadeiras galerias a céu aberto, ao mesmo tempo em que fortalece a cultura hip-hop, incentiva a ocupação dos espaços públicos e destaca a arte como ferramenta de inclusão e transformação social.
Origem e Crescimento do Projeto 1000 Cores
Idealizador da ação, Roberto Júlio Ferreira, conhecido como Betinho, contou que o projeto começou em 2009, quando decidiu grafitar 16 muros em Ceilândia. Ao apresentar a proposta ao então deputado federal Geraldo Magela (PT), aceitou o desafio de ampliar a iniciativa para 100 espaços. “Peguei as assinaturas dos moradores e realizamos o projeto no Dia da Consciência Negra”, relembrou Betinho.
Desde 2001, a prática do grafite não é mais considerada crime quando realizada com objetivos artísticos e com autorização do proprietário ou órgãos competentes. Betinho destaca que a descriminalização pela Lei 12.408/2001 abriu caminhos para uma nova geração de artistas e consolidou o grafite como profissão. “Muitos amigos que começaram nas ruas hoje vivem da arte urbana, evoluindo pessoal e profissionalmente. Eles adotaram sua arte, e isso é muito gratificante”, ressaltou.
Ampliação e Impacto Social do Projeto
A intervenção na Estação Guariroba representa a terceira edição do Projeto 1000 Cores, que anteriormente reuniu 16 artistas na Praça das Mães, na QNN 26. Desta vez, o número quase dobrou, com participação de até 30 artistas e voluntários interessados em aprender com os mais experientes. O acesso ao spray, ferramenta essencial para o grafite, é restrito a maiores de 18 anos, o que atraiu muitos jovens entre 18 e 29 anos, segundo o idealizador.
Para garantir o espaço adequado, foi necessária uma semana de pré-produção, com pintura do muro e organização dos materiais, que ainda terão ajustes finais nas próximas semanas. Mais do que a estética, Betinho destaca o impacto social do grafite: “Além de embelezar a cidade, o grafite desperta o sentimento de pertencimento. Quando o artista deixa sua marca, passa a valorizar e cuidar do espaço público”.
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Planos e Curadoria do Projeto
O sucesso da ação motiva novos projetos, como a ideia de transformar o Viaduto da Ceilândia Sul em referência da arte urbana no Distrito Federal. “Sonhamos em criar um grande painel com um ‘I Love Ceilândia’ e obras de vários artistas, formando um viaduto cultural que represente não só Ceilândia, mas toda a região”, afirmou Betinho.
Elon Fernando, responsável pela curadoria, explicou que a seleção dos artistas levou em conta a relação deles com Guariroba e a história local. “O trabalho é coletivo, envolvendo grafite e cultura hip-hop. Buscamos artistas ligados ao território e convidados de outras regiões para fortalecer a troca cultural”, disse Elon.
Para o curador, o grafite vai além da pintura: “É uma forma de inspirar crianças e adolescentes a enxergarem na arte uma possibilidade de vida, seja como profissão, terapia ou transformação pessoal. O grafite educa, resgata e socializa”.
Importância para a Comunidade e Legado
Carlos Roberto Trindade, o Kamarão, parceiro do projeto, destacou que a escolha do local considera o fluxo intenso de pessoas e a relevância para a comunidade, próxima a ginásio, escola, estação de metrô e quadras esportivas. “Os moradores são os grandes beneficiados, e esperamos que o espaço se torne um ponto cultural de referência”, afirmou.
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Morador da Guariroba, Danielton Lima ressaltou que o mural reforça a identidade local e aproxima a população da arte da região. “Valoriza os artistas da Ceilândia. Depois do trabalho, passar aqui e ver essa arte traz leveza e beleza para a cidade. Ceilândia merece mostrar a força cultural que tem”, pontuou.
Homenagem a Rivas Alves e Continuidade do Movimento
A terceira edição do 1000 Cores também foi dedicada a Rivas Alves, figura central da cultura hip-hop no Distrito Federal, falecido aos 56 anos devido a um câncer. Fundador da Casa do Hip-Hop Ceilândia e irmão do DJ Jamaika, Rivas participou ativamente do projeto desde sua primeira edição. Familiares, amigos e fãs realizaram sua despedida em cerimônia na igreja Sarah Nossa Terra, em Ceilândia.
Betinho lembrou a importância de Rivas na construção e curadoria do projeto: “Ele sempre nos ajudou muito e merece homenagens pelo legado na música, no grafite e na forma como ensinou que a arte liberta. Rivas é imortal”, disse emocionado.
Elon Fernando compartilhou sua lembrança do amigo: “Quero guardar a imagem dele dizendo ‘bora fazer um corre’. A missão continua. É uma perda enorme para Brasília, Ceilândia e a cultura hip-hop, mas o legado dele deve seguir vivo”.

