A Perspectiva do Agronegócio no Brasil

Com uma trajetória sólida no agronegócio, Octaciano Neto, que cresceu na Fazenda Guanabara em Pedro Canário, Espírito Santo, compartilha sua visão sobre as constantes menções à crise no setor. Desde os tempos de seu avô, que chegou à fazenda em 1958, e seu pai, Eudis Bahia, formado em Medicina Veterinária e que ingressou no negócio em 1979, Neto observa que a palavra “crise” tem sido uma constante na fala de muitos produtores rurais. Para ele, essa reclamação é quase uma característica cultural entre os empresários do campo.

O marco de 1984, quando se extinguiu a ‘conta movimento’ e o financiamento do agronegócio passou a depender mais do capital privado, trouxe um novo cenário, mas o discurso de crise perdurou. Atualmente, mais de 95% do financiamento do setor provém de recursos privados, porém a narrativa de crise ainda é prevalente.

O Crescimento do Setor Agrícola

Embora Neto tenha presenciado a falência de diversas empresas, como a usina de álcool Cridasa, que era responsável por uma significativa quantidade de empregos em sua região, ele também testemunhou o surgimento de histórias de sucesso inspiradoras. Ele menciona que muitos de seus amigos, filhos de retirantes, se tornaram prósperos no agronegócio. Hoje, o norte do Espírito Santo, onde ele reside, abriga algumas das terras mais caras do Brasil, avaliadas em torno de R$ 150 mil por hectare. A riqueza do setor cafeeiro, de acordo com Neto, contribuiu significativamente para a ascensão econômica da região nos últimos anos.

Desde os anos 90, o Brasil tem alcançado recordes sucessivos em produção agrícola e exportação no agronegócio. Em 2000, o superávit da balança comercial nesse setor era de cerca de US$ 15 bilhões; em 2025, essa cifra saltou para impressionantes US$ 169 bilhões em exportações. Enquanto isso, outros setores enfrentam déficits crescentes.

Números que Contam uma História

A produção de grãos no Brasil cresceu mais de 500% desde a safra de 1985/86, e esse aumento em produtividade permitiu que o país economizasse vastas áreas de terras. De acordo com especialistas como Marcos Fava Neves, o Brasil possui 851 milhões de hectares, dos quais apenas 31% são destinados à agropecuária, o que sugere um potencial ainda vasto para expansão.

Com o crescimento econômico do agronegócio, Neto destaca que a atividade enfrentou diversas crises financeiras ao longo dos anos, mas sempre se recuperou. O que se observa atualmente, segundo ele, é um ciclo de expansão que requer investimentos substanciais. Os desafios financeiros enfrentados pelos produtores não indicam uma crise generalizada, mas sim uma necessidade de gestão mais criteriosa das finanças.

Desafios e Oportunidades no Setor

O aumento das recuperações judiciais (RJs) no campo é um dos principais argumentos usados para afirmar que o agronegócio está em crise. Contudo, Neto esclarece que até 2020, essas recuperações eram praticamente inexistentes, e sua ascensão se deu com a nova legislação que facilitou o acesso ao regime de recuperação judicial. Com um universo de cerca de 1 milhão de produtores agrícolas, as cerca de 1.582 RJs registradas até o terceiro trimestre de 2025 representam menos de 0,3% dos produtores tomadores de crédito.

A inadimplência bancária também aumentou, mas não de maneira alarmante. Dados mostram que, no segundo trimestre de 2025, a inadimplência no setor agro foi de 3,94%, comparada a 5,59% em pessoas físicas e 4,18% em pessoas jurídicas. O vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt, confirmou que, embora os agricultores enfrentem um ano desafiador, os resultados devem melhorar em relação a 2025. Para ele, a verdadeira questão não é a rentabilidade, mas a liquidez.

Reflexões sobre o Futuro do Agronegócio

Neto observa que muitos produtores se alavancaram durante períodos de alta nos preços das commodities, o que contribuiu para a sua vulnerabilidade nas atuais condições de mercado. Com a gestão financeira se tornando um ativo essencial, ele acredita que o futuro do setor dependerá da adoção de práticas mais rigorosas, como a auditoria e a disciplina de capital. As terras devem ser transferidas para aqueles que mantêm uma operação produtiva e financeiramente saudável.

Embora os altos juros sejam um fator desafiador — especialmente com a diminuição da relevância do Plano Safra —, Neto mantém uma visão otimista sobre o futuro do agronegócio. Ele aponta que, mesmo diante de adversidades climáticas e mudanças geopolíticas, o setor permanecerá como um pilar vital da economia brasileira. Assim, a narrativa de crise no agronegócio pode ser questionada, e a realidade parece apontar para um ciclo de crescimento e adaptação.

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