Um Ano de Mobilização e Ação
O Colaboratório Com Elas, da Fiocruz Brasília, foi criado como resposta à crescente violência de gênero no Distrito Federal, completando um ano de atividade como uma plataforma inovadora que conecta ciência, políticas públicas e ação comunitária. Surgido da mobilização de movimentos feministas na região, o projeto visa enfrentar os alarmantes índices de feminicídio e violência contra as mulheres.
A proposta do Colaboratório se consolidou após encontros entre representantes dos movimentos feministas e a Fiocruz Brasília, onde ficou evidente a necessidade de um espaço permanente de articulação. A ideia é não apenas discutir, mas implementar ações efetivas e integradas em resposta ao cenário de violência.
A Coordenação e a Participação Social
Rosângela Camapum, coordenadora geral do projeto, relembra que a iniciativa foi uma solicitação direta dos movimentos feministas, que se reuniram com a deputada Érika Kokay (PT-DF) para demandar uma organização que pudesse atuar na redução dos índices de feminicídio. “É a mobilização dos territórios que fortalece essa luta”, enfatiza.
Desde sua fundação, o Colaboratório tem como princípio a gestão compartilhada. Camapum destaca que a estrutura do projeto foi planejada para assegurar a participação ativa dos movimentos sociais na definição das ações e prioridades. “O Colaboratório é uma construção coletiva, que emerge dos territórios”, afirma.
Práticas e Estrutura
A proposta se fundamenta em conceitos de educação popular em saúde e gestão participativa. Para isso, a iniciativa foi dividida em três grupos de trabalho: o Grupo de Processos Formativos (GPF), o Grupo de Pesquisa Participativa (GPP) e o Núcleo de Ações Territoriais (NAT). Juntos, esses grupos buscam criar um ambiente colaborativo e produtivo.
Atualmente, cerca de 75 movimentos feministas e organizações sociais estão envolvidos nas atividades do Colaboratório. Durante o 2º Encontro do Com Elas, Camapum destacou que o planejamento das ações é sempre realizado em conjunto, refletindo a essência colaborativa da proposta.
Balanço das Atividades e Impactos
Entre as atividades realizadas em 2025, destaca-se a cartografia social da Região Administrativa da Estrutural, inicialmente escolhida para a atuação do projeto. Esse mapeamento foi realizado de forma participativa, identificando 28 coletivos de mulheres e conectando-os a serviços públicos essenciais. Instituições como o Ministério Público e a Secretaria de Segurança Pública também foram envolvidas, buscando alinhar as políticas públicas à realidade local.
Além das ações em território, o Colaboratório promoveu oficinas sobre os direitos das mulheres em diversas Regiões Administrativas do DF, como Ceilândia e Planaltina, incentivando o diálogo sobre masculinidades e prevenção da violência de gênero.
Articulação Institucional e Mobilização Social
A construção do Colaboratório também envolveu diversas instituições públicas. Fabiana Damázio, diretora da Fiocruz Brasília, relata que o diálogo com os movimentos sociais começou após um encontro no Eixão do Lazer, onde a necessidade de um enfrentamento ao feminicídio foi discutida. A Fiocruz, então, organizou frentes de trabalho para articular respostas integradas ao problema da violência de gênero.
Em fevereiro, um encontro também contou com a presença da deputada federal Érika Kokay, que abordou a gravidade da violência contra as mulheres no Brasil, ressaltando que este é um problema que se constrói antes de chegar às estatísticas. A parlamentar enfatizou que muitas formas de violência não são imediatamente identificáveis, mas têm consequências profundas na vida das mulheres.
Experiências e Desafios
O coletivo Kizomba, entre os que integram o Colaboratório, representa a voz da juventude nos debates. Ludmila Brasil compartilha que os encontros têm reunido mulheres de várias idades para discutir questões cotidianas que afetam suas vidas. Uma moradora da Cidade Estrutural, por exemplo, relatou sua vivência em um ciclo de violência e as dificuldades enfrentadas para acessar a justiça. “A realidade é dura. Muitas querem apenas paz, mas encontram barreiras”, comentou.
Olhar para o Futuro
Para 2026, o Colaboratório Com Elas planeja expandir suas atividades e fortalecer ações de formação e pesquisa participativa. Novas oficinas e a produção de uma cartilha sobre direitos das mulheres estão entre as iniciativas programadas. Além disso, estudos para identificar fatores associados à violência de gênero em diferentes territórios do DF serão realizados, com apresentação de resultados em um seminário voltado para políticas públicas.
Camapum finaliza ressaltando que o planejamento das futuras atividades será baseado na avaliação dos resultados até aqui. A participação dos movimentos sociais continua sendo fundamental para definir os próximos passos e ampliar o impacto das ações de enfrentamento à violência contra as mulheres no Distrito Federal.
