Iniciativa Preserva Memórias e Histórias do Distrito Federal
Antes da era das redes sociais e dos vídeos gravados em celulares, a história era capturada em película — filmes físicos utilizados em câmeras antigas que preservam momentos marcantes de outras épocas. É esse patrimônio que o projeto “Preservação do Acervo Filmográfico do Arquivo Público do Distrito Federal: Pesquisa, Tratamento e Digitalização”, coordenado pela pesquisadora Lila Silva Foster em parceria com o Instituto Latinoamericano, busca proteger e tornar acessível ao público.
Com o apoio da FAPDF, através do programa Desafio DF (2024), a iniciativa trabalha na organização, restauração e digitalização de um acervo que conta com centenas de títulos e mais de mil rolos de filmes, essenciais para a memória do Distrito Federal — muitos deles ainda pouco conhecidos.
Com um investimento superior a R$ 1,4 milhão, a assistência da FAPDF possibilita a estrutura técnica e científica necessária para realizar o projeto, abrangendo equipamentos, serviços especializados e ações formativas. “O respaldo da FAPDF não apenas estruturou a parte técnica, mas também criou condições para que esse acervo seja mais acessível à sociedade”, destaca Lila.
Agora, imagens que permaneceram por décadas restritas ao arquivo têm a chance de circular, permitindo que diferentes gerações revisitem e se reconheçam na história do Distrito Federal.
“Quando apoiamos iniciativas como essa, não estamos apenas investindo em tecnologia ou em estrutura, mas assegurando que a história de Brasília mantenha-se acessível, viva e em constante diálogo com as futuras gerações”, afirma Leonardo Reisman, presidente da FAPDF.
Um Acervo Diversificado que Reflete a Vida Cotidiana
A coleção filmográfica do Arquivo Público do Distrito Federal abrange desde produções institucionais até registros amadores, criando um panorama diversificado sobre a formação da cidade. O levantamento inicial do projeto identificou 429 títulos e 1.160 rolos de filmes, que incluem materiais de diferentes períodos e origens, ajudando a narrar a história de Brasília sob várias perspectivas.
“Esse acervo é um reflexo da atividade de registros. Temos desde cinejornais associados às narrativas oficiais até filmes amadores que retratam o cotidiano de quem vivia na cidade naquele momento”, explica Lila Foster.
Ela ressalta que esses registros menos conhecidos são de grande valor: “São filmes que capturam passeios, momentos de lazer e a experiência de uma juventude que chegava a uma cidade ainda em construção. É uma visão alternativa sobre Brasília”.
Desafios da Preservação do Acervo Audiovisual
Apesar da importância histórica, uma parte significativa desse material está em suportes físicos que são sensíveis ao tempo. “A película é composta por elementos físico-químicos que, ao longo dos anos, interagem com o ambiente e sofrem processos de deterioração”, enfatiza a pesquisadora.
Um dos principais problemas enfrentados pelo acervo é a chamada síndrome do vinagre, que ocorre quando o material começa a se decompor. “Esse processo pode resultar em deformações, encolhimento, ressecamento e até perda da imagem. Nosso trabalho visa controlar essa degradação e garantir que o conteúdo não se perca”, detalha.
“Acervos audiovisuais são, de certa forma, entidades vivas. O processo de deterioração é inevitável — o que podemos fazer é gerenciar essa condição”, complementa a especialista.
Cuidados em Cada Etapa do Processo
A tarefa de preservação começa muito antes da digitalização. Cada película passa por um cuidadoso processo de revisão manual, em que os filmes são analisados, limpos, reparados e catalogados. Em determinados casos, são realizadas correções físicas nas emendas e perfurações, além da mensuração do nível de deterioração com instrumentos adequados.
Esse diagnóstico técnico permite estabelecer prioridades de preservação e direcionar todo o fluxo de trabalho do projeto. Até agora, cerca de 60% do acervo já foi analisado, o que possibilitou identificar quais materiais estão em melhores condições para a digitalização imediata. A seleção também abrange uma curadoria de conteúdo.
“Estamos lidando tanto com filmes mais conhecidos quanto com materiais menos explorados, como filmes amadores. Nosso objetivo é ampliar o acesso e diversificar as narrativas disponíveis”, afirma Lila.
Um Futuro Sustentável para a Preservação
Um dos diferenciais da iniciativa é que ela não se limita a ações pontuais. O projeto está estruturando uma base permanente dentro do Arquivo Público do DF, com aquisição de equipamentos, reorganização de espaços e criação de fluxos técnicos para garantir a preservação e digitalização do acervo.
Foi desenvolvido um repositório digital, baseado em tecnologia aberta, que permitirá organizar e disponibilizar informações sobre os filmes de maneira estruturada e acessível ao público. “Sustentabilidade sempre foi a palavra-chave do projeto. A ideia é criar uma estrutura que possibilite a continuidade desse trabalho dentro da instituição”, enfatiza a coordenadora.
Outro aspecto relevante é a capacitação de profissionais. O projeto já promoveu cursos e treinamentos para servidores e colaboradores do Arquivo Público, abordando desde conceitos básicos até o manuseio direto das películas e dos equipamentos de preservação. “Formamos não apenas uma equipe para o projeto, mas profissionais que podem dar continuidade a essa iniciativa”, afirma Lila.
Com os conteúdos digitalizados, pesquisadores, instituições e o público em geral terão acesso facilitado às imagens, sem a necessidade de manipulação dos materiais originais. A digitalização não apenas protege, mas transforma a forma como o acervo pode ser utilizado. Essa iniciativa contribui para dar visibilidade a diferentes formas de memória. “Os arquivos regionais são essenciais para garantir narrativas plurais. Eles preservam experiências que frequentemente não aparecem nos registros oficiais”, finaliza a pesquisadora.
