Presença marcante do cinema pernambucano no Festival de Brasília
Quatro produções pernambucanas compõem a programação da 59ª edição do Festival de Brasília do cinema brasileiro, o evento cinematográfico em atividade mais antigo do país e referência para a produção nacional. O curta-metragem “Banho de Choque”, dirigido e roteirizado por Cíntia Lima, estreia nesta sexta-feira (18), às 21h, no Cine Brasília, e terá uma nova sessão no sábado (19), às 10h. Já “Os Vivos Caminham a Terra”, de Pedro Maia de Brito, foi exibido na quinta-feira (17). O festival também mostrou o longa de animação “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” e a série “Delegado” nos dias 14 e 12 de setembro, respectivamente.
Diversidade audiovisual e territorial em foco
Essas obras evidenciam a pluralidade da produção audiovisual pernambucana, transitando entre ficção, animação e série policial. O festival se aproxima de diferentes regiões do estado: “Banho de Choque” se passa na Zona da Mata; “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” contou com profissionais do Agreste; e “Delegado” é fruto de realizadores ligados ao cinema do Recife. Já “Os Vivos Caminham a Terra” explora as paisagens do Vale do Catimbau, no Sertão, e também foi filmado em locações na Paraíba e no Rio Grande do Norte.
“Banho de Choque”: estreia e narrativa
Este é o primeiro curta de ficção dirigido por Cíntia Lima, que estreia com “Banho de Choque” dentro da Mostra Competitiva Nacional. O filme acompanha Lélia, mulher de 50 anos que retorna à terra natal após anos afastada. Ao tentar reorganizar sua vida junto à família e antigas amigas, ela mergulha em uma barragem e passa a experimentar visões que misturam passado e futuro. Ambientado em municípios da Zona da Mata pernambucana como Carpina, Paudalho, Lagoa do Carro, Tracunhaém e Feira Nova, o filme une suspense e fantasia, valorizando as paisagens locais na construção do universo da personagem.
O elenco reúne Gheuza, Lalá Vieira, Jailson Silva, MC Negrita e Helena Tenderini, com participação especial de Vera Baroni. A produção é de Lílian de Alcântara e da Olar Filmes, com produção executiva de Keyse Menezes. Cíntia Lima, natural de Carpina, já participou do Festival de Brasília como atriz em filmes como “Loja de Reptéis” e “O Nó do Diabo”. Ela ressalta que o festival foi um espaço para refletir sobre a representação dos corpos negros no cinema e a construção de narrativas que deseja ocupar. O projeto recebeu incentivos do 15º Funcultura Audiovisual e da Lei Paulo Gustavo, por meio da Fundarpe e Secretaria de Cultura de Pernambuco.
“Os Vivos Caminham a Terra”: mitologia e paisagens
Exibido antes da estreia de “Banho de Choque”, “Os Vivos Caminham a Terra” é o primeiro longa de ficção do realizador pernambucano Pedro Maia de Brito. Filmado em preto e branco e em 4K, o filme constrói uma narrativa que privilegia imagens, gestos, sons e atmosfera em detrimento dos diálogos, explorando uma transformação permeada por elementos míticos.
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O cenário principal é o Vale do Catimbau, com filmagens também no Castelo de Zé dos Montes (Rio Grande do Norte) e na Pedra da Boca (Paraíba). A trama parte da ideia de que “Tudo o que existia era eternidade. Então, a vontade inconformada das coisas originou metamorfose.” A obra articula espiritualidade, surrealismo e mitologia para criar um universo em constante mudança.
Nivaldo Nascimento protagoniza o filme, que inclui moradores das comunidades filmadas, sem experiência em atuação, no elenco. A trilha sonora é da compositora húngara Petra Szászi, com desenho de som e mixagem assinados por Nicolau Domingues. Danilo Rosa assina a fotografia, e Denise Vieira dirige arte e figurino. A produção é da Miúdo Cinematográfico, em coprodução com a Riacho e participação das produtoras Cajamanga e Sound8, com incentivo do Funcultura.
Pedro Maia de Brito tem histórico no Festival de Brasília, onde recebeu o Candango de Melhor Curta em 2018 e o Prêmio Abraccine de Melhor Longa da Crítica em 2020. Natural do Recife, ele atua como realizador, roteirista, montador e produtor, com trabalhos reconhecidos nacional e internacionalmente.
“Amadeo e o Hipotético Mundo Novo”: animação e protagonismo negro
Mostrado no dia 14 de setembro, o longa de animação dirigido por Brenda Lígia mistura aventura, romance e fantasia para revisitar a história brasileira. A trama acompanha Amadeo, jovem cientista africano que inventa a fotografia antes dos europeus, usando essa descoberta para denunciar a escravidão e contribuir para a libertação dos escravizados.
Produzido com participação da SAGUI Studio, de Caruaru, e do Refúgio Onírico, o filme contou com profissionais do Agreste em várias etapas. Everton Amorim, fundador das duas produtoras, atuou na direção de arte e animação. A estreia mundial ocorreu no 28º Festival Internacional de Cinema de Xangai, na China. Em Brasília, integra a Mostra Brasília, concorrendo ao Troféu Câmara Legislativa. O lançamento nos cinemas brasileiros está previsto para novembro, com distribuição da Downtown Filmes.
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Brenda Lígia destaca a importância de colocar um cientista africano no centro da narrativa, celebrando o protagonismo negro e apostando no impacto da animação para todas as idades. O elenco de vozes inclui Sérgio Menezes, Edmilson Filho, Naruna Costa, Paolla Oliveira, Antônio Fagundes, Mateus Solano, Tiago Abravanel, Adriana Lessa, Igor Cotrim, Dexter, Léa Garcia e a própria diretora.
“Delegado”: série policial em destaque
O festival também exibiu, em 12 de setembro, os três episódios da série “Delegado”, dirigida e roteirizada pelos pernambucanos Leonardo Lacca e Marcelo Lordello. A trama acompanha Felipe, um jovem delegado de classe média que assume uma delegacia na periferia do Recife, enfrentando conflitos com a equipe, a instituição e o crescimento do tráfico local.
Produzida por Emilie Lesclaux e coproduzida por Kleber Mendonça Filho, a série conta com Johnny Massaro, Alice Carvalho, Rubens Santos, Hermila Guedes, Virgínia Cavendish, Igor de Araújo, Narcival Rubens, Georgette Fadel, Nataly Rocha e Tânia Maria no elenco. A exibição no Cine Brasília marcou a primeira vez que o festival dedicou sua sala principal à exibição de episódios de uma série audiovisual.
Leonardo Lacca e Marcelo Lordello têm trajetória premiada no festival, com prêmios em 2007 e 2012. “Delegado” fará parte da programação do Canal Brasil, ampliando sua circulação para além do festival.
Circulação e perspectivas
O destaque do cinema pernambucano na programação do Festival de Brasília revela a diversidade de vozes e territórios que formam a produção local. A variedade de formatos e gêneros, assim como a ligação com diferentes regiões do estado, contribuem para ampliar o olhar sobre a cultura audiovisual de Pernambuco. O acesso às obras no festival e a circulação em outras plataformas e eventos reforçam a presença de Pernambuco no cenário nacional.

