O início da competição nacional no Festival de Brasília
O Festival de Brasília do cinema brasileiro abriu sua competição nacional neste fim de semana com dois longas que se destacam por suas abordagens sensíveis e inovadoras. “Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco, traz um olhar bem-humorado sobre a vida queer em Catalão, interior de Goiás, enquanto “Ana, en Passant”, de Fernanda Salgado, apresenta uma animação delicada sobre memória e descoberta familiar em Belo Horizonte. Ambos os filmes, distintos em estilo e narrativa, refletem a diversidade e a riqueza do cinema brasileiro contemporâneo.
Pequenas Tragédias: entre documentário e fabulação
Em “Pequenas Tragédias”, Nolasco parte de sua experiência pessoal para construir uma obra que mistura quase documentário e fabulação. O filme acompanha uma geração LGBTQIA+ que deixou Catalão, desapareceu da vida pública local ou faleceu. A ideia do longa surgiu quando o diretor retornou à sua cidade natal em 2019 para filmar “Vento Seco” e percebeu as profundas transformações pela ausência de muitos conhecidos.
Ao se deparar com a ausência de amigos que migraram para outros centros urbanos e a quase extinção da vida LGBT local, Nolasco decidiu que o formato documental convencional não seria suficiente para contar essa história. A solução foi incorporar elementos de fabulação para construir uma narrativa que evita reproduzir a violência sofrida pela comunidade de forma direta, optando por imagens que provoquem prazer no público queer e desconforto em espectadores homofóbicos. Essa escolha traz ao filme erotismo, humor e exposição dos corpos, mesmo quando aborda temas como morte e agressão.
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O relacionamento do diretor com Catalão também revela tensões culturais. Após o lançamento de “Vento Seco”, uma cópia pirata circulou em grupos de WhatsApp locais, gerando reações mistas entre orgulho e críticas conservadoras. Para “Pequenas Tragédias”, a equipe chegou a ocultar o nome de Nolasco em algumas apresentações, receosa de como a associação poderia influenciar a recepção do filme. Um episódio no supermercado onde o diretor trabalhou por 13 anos consolidou sua decisão de seguir adiante com o projeto, mesmo diante de resistência.
A delicadeza da animação em Ana, en Passant
Por outro lado, “Ana, en Passant” conduz o espectador por uma jornada pela memória afetiva. A protagonista Ana, nascida em Paris e filha de brasileiros, viaja a Belo Horizonte após o falecimento da avó. A partir de uma carta deixada por ela, Ana busca reconstruir sua história e se conecta com Alice, revelando camadas íntimas de sua identidade e passado.
Fernanda Salgado, que desenvolveu o projeto desde 2018, com raízes em um roteiro de 2012, investiu oito anos em desenvolvimento, captação e produção do longa. O filme utiliza a técnica de rotoscopia, que anima imagens previamente filmadas, combinando diferentes procedimentos visuais para criar uma unidade estética. Essa escolha foi fundamental para dar vida aos universos internos e às transformações das personagens, algo que, segundo a diretora, só teria sido possível por meio da animação.
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A produção foi realizada remotamente, envolvendo mais de 60 animadores de várias regiões do Brasil e também de Portugal entre 2023 e 2025. Salgado, que não é animadora, contou com o apoio da equipe de direção de arte e animação para garantir a coesão visual do filme. Essa colaboração resultou em uma obra que ressalta a profundidade emocional e a complexidade das relações familiares apresentadas.
Caminhos distintos, relevância cultural compartilhada
Enquanto “Pequenas Tragédias” investe em uma narrativa que entrelaça realidade e ficção para abordar questões sociais urgentes da comunidade LGBTQIA+, “Ana, en Passant” se destaca por sua sensibilidade e técnica para contar uma história de memória e identidade. Ambos os filmes refletem o vigor e a diversidade do cinema nacional, abrindo o Festival de Brasília com perspectivas que dialogam com públicos variados.
A competição nacional segue movimentando a agenda cultural, oferecendo ao público a oportunidade de acompanhar produções que exploram temas atuais com originalidade e profundidade. A circulação desses filmes em festivais é fundamental para ampliar o debate cultural e fortalecer a produção audiovisual brasileira.

