Uma Viagem no Tempo e no Espaço Político
Em 1940, o crítico literário americano Edmund Wilson lançou “Rumo à Estação Finlândia”, obra que, em edição de bolso pela Cia das Letras, resgata um século de pensamento revolucionário sob a forma de uma única jornada. Wilson não apenas apresenta as doutrinas de nomes como Michelet, Marx, Bakunin e Engels, mas destaca o temperamento e a estatura pessoal daqueles que, em determinado momento, ocupam posições de comando. O desfecho do livro mostra Lênin desembarcando na Estação Finlândia, em Petrogrado, em 1917, um ponto simbólico que marca a chegada ao centro do poder, cercado por uma multidão ávida por transformação.
Brasília e a Ausência de Simbolismo na Estação Central
Ao contrário do que ocorre na obra de Wilson, Brasília não oferece esse tipo de generosidade simbólica. Chegar à Estação Central do Metrô-DF significa desembarcar próximo à rodoviária do Plano Piloto, ainda distante quatro ou cinco quilômetros do coração político da cidade, a Praça dos Três Poderes e o Palácio do Planalto. Essa chegada não representa o fim da jornada, mas sim o momento em que ela se torna pública, um ponto de partida para o caminho que ainda será percorrido.
Os Personagens da Travessia e o Peso da Instituição
Imaginar o que Edmund Wilson faria diante da atual travessia política do presidente Lula rumo a um possível último mandato revela um quadro complexo. Não estamos diante de figuras que carreguem a estatura intelectual ou o temperamento revolucionário de Marx ou Bakunin. Ao invés disso, dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) protagonizam uma disputa que reflete uma mediocridade institucional preocupante, capaz de influenciar decisivamente o destino do país.
Alexandre de Moraes construiu sua trajetória na gestão da segurança pública e na pasta da Justiça, e não no universo acadêmico ou na doutrina constitucional. Nomeado ao STF por Michel Temer em 2017, Moraes acumulou poder significativo, especialmente após assumir a relatoria dos inquéritos das fake news e dos atos golpistas, além de sua passagem pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Esse acúmulo de capital simbólico ultrapassou o que a posição formal de ministro geralmente confere, apoiado pelo campo progressista.
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Porém, o poder concentrado sem um repertório interpretativo adequado tem gerado erros políticos. As revelações das mensagens trocadas entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, evidenciam uma informalidade incomum para um ministro do STF. Vorcaro enviava fotos de anotações pelo celular, e Moraes respondia com mensagens que se autodestruíam. Ainda mais grave, sua esposa possuiu um contrato milionário com o banco, que enfrentou colapso deixando um rombo estimado em R$ 52 bilhões.
A Disputa Interna no Supremo e a Intervenção Política
O outro ministro em destaque é André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro em 2021, numa escolha mais política e evangélica do que jurídica. Mendonça tenta desempenhar um papel institucional similar ao de Gilmar Mendes, mas sem o mesmo domínio. Para compensar, ele utiliza influências externas, como a pressão das big techs americanas e o apoio do governo dos Estados Unidos, que cogitou sanções pessoais contra Moraes, conforme reportado pelo Financial Times.
Mendonça ordenou a quebra do sigilo das mensagens entre Moraes e Vorcaro, ato visto por aliados como demonstração de coragem e por adversários como manobra tática. Moraes respondeu solicitando investigação sobre Mendonça por supostos excessos e direcionamento de inquéritos, enquanto Gilmar Mendes acusa Mendonça de romper a neutralidade da Corte. A disputa não gira em torno de doutrina, mas de poder e influência dentro do STF.
Reflexões a partir da Obra de Wilson para o Contexto Atual
Edmund Wilson, cuja leitura marcou minha experiência há mais de 30 anos, mostrou que a história pode ser decidida pelo temperamento e pela biografia de poucos homens, desde que esses personagens possuam uma densidade intelectual e doutrinária significativa. Marx, Bakunin, Trotsky e Engels apresentavam engenhosidade e intensidade em seus ideais, mesmo que conflituosos. Lênin, por sua vez, distinguia-se pela precisão e frieza no momento de agir, característica que define quem realmente sabe exercer o poder.
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No cenário atual do Supremo, o que se observa é uma variação empobrecida desse mecanismo. O peso histórico recai sobre figuras cuja ilusão de poder não se sustenta em capital intelectual ou crença política consolidada. O contraste entre a grandiosidade dos personagens históricos e a mediocridade dos protagonistas atuais evidencia um momento delicado para a institucionalidade brasileira.
Próximos Passos na Travessia Política
Aplicando o método de Wilson à travessia final de Lula, destaca-se a necessidade de um cálculo frio e preciso diante da mediocridade dos ministros do STF. O presidente já experimentou o custo de uma reaproximação com Moraes baseada em leituras menos rigorosas, um erro difícil de perdoar num ambiente tão polarizado. Com a eleição se aproximando, a alternativa parece ser acelerar a queda de Mendonça para evitar que a crise institucional se transforme em um terremoto político irreversível.
Essa superação dependerá da atuação de figuras como Dino, Zanin e Gilmar. Carmen Lúcia, conhecida por sua postura firme na crise de Dilma, mantém-se neutra, enquanto Fachin demonstra cautela excessiva e outros ministros permanecem à margem do debate. A travessia da cena política brasileira está próxima do fim, com desafios que exigem atenção e decisões estratégicas para garantir a estabilidade institucional e a continuidade democrática.

