Desafios Logísticos no Agronegócio
A instabilidade no estreito de Hormuz tem se revelado um grande desafio para o agronegócio brasileiro. Essa região é uma rota crucial para a entrega de produtos e insumos que seguem em direção ao Oriente Médio e à China. A crescente incerteza tem gerado preocupações significativas entre as empresas brasileiras que atuam nesse mercado, pois, devido ao conflito, as operadoras logísticas estão aplicando uma chamada “taxa de guerra” para garantir o escoamento dos navios cargueiros por rotas alternativas.
No último sábado, o Irã, que havia anunciado a liberação da passagem de navios pelo estreito, reverteu essa decisão, mantendo, portanto, a via fechada até o momento. Essa situação se torna ainda mais crítica em um cenário em que o agronegócio brasileiro chegou a exportar US$ 169,2 bilhões em 2025. Desses, cerca de US$ 12,4 bilhões foram destinados ao Oriente Médio, o que representa 7,4% do total de exportações do país.
Efeitos nas Exportações Agrícolas
De acordo com Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a continuidade das restrições em Hormuz está comprometendo a capacidade de exportação das empresas brasileiras para a região. “O principais prejuízos dizem respeito aos custos elevados e ao esforço necessário para garantir as entregas por rotas alternativas”, destaca Santin. Ele ainda ressalta a esperança de um acordo breve, pois embora a situação seja complicada, as vendas têm mostrado sinais positivos, com a primeira parcial de abril indicando continuidade nas exportações.
Para contornar os obstáculos, o escoamento das commodities agrícolas está sendo desviado para o mar Vermelho, seguindo pelo canal de Suez e pelo estreito de Bab el-Mandeb. Embora essa rota seja considerada arriscada, muitos operadores têm escolhido esse caminho no momento. Devido ao perigo de ataques dos rebeldes houthis no mar Vermelho, algumas embarcações estão optando por desviar pelo Cabo da Boa Esperança, localizado no extremo sul da África.
Dependência de Insumos e Fertilizantes
A região do Oriente Médio é vital para a exportação de carne de frango e milho do Brasil. O Irã, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão entre os principais destinos das commodities brasileiras. Marcos Jank, professor de agronegócio do Insper, ressalta que, mesmo diante das dificuldades, as empresas brasileiras devem encontrar maneiras de acessar esses mercados, pois há uma grande dependência desses países em relação aos produtos brasileiros. “O Irã, por exemplo, é um dos maiores compradores de milho do Brasil, essencial para a produção de frango lá”, afirma Jank.
Contudo, Jank alerta que o principal problema atualmente reside nos insumos. O Brasil, sendo o maior importador de fertilizantes do mundo, depende do estreito de Hormuz para o escoamento de itens cruciais. Aproximadamente 40% das exportações mundiais de ureia e 30% das de amônia passam por essa rota, o que acentua a vulnerabilidade do setor agrícola brasileiro. A incerteza sobre o futuro do estreito traz à tona preocupações sobre a próxima safra, com a possibilidade de desabastecimento de insumos podendo elevar os preços dos alimentos no segundo semestre.
“Estamos enfrentando um panorama complicado no que diz respeito aos fertilizantes. Este é o desafio mais urgente. Para que os fertilizantes cheguem ao Brasil, particularmente os produtos à base de nitrogênio e enxofre, é fundamental que o estreito esteja aberto. A safra começa em setembro, mas os fertilizantes precisam chegar antes”, acrescenta Jank.
Impactos no Setor de Alimentos
A MBRF, responsável pelas marcas Sadia e Perdigão, já está sentindo os efeitos das restrições no estreito de Hormuz. O tempo médio de entrega na região aumentou de 40 para mais de 60 dias, representando um acréscimo de pelo menos 50%. “Os fretes aumentaram devido ao que os operadores logísticos chamam de ‘taxa de guerra’, visto que a região é afetada por conflitos. Também estamos enfrentando custos mais altos com a logística terrestre e o armazenamento”, explica Leonardo Dallorto, vice-presidente de mercado internacional e cadeia de suprimentos da empresa.

