A Influência de Wladimir Murtinho na Cultura Brasileira
Em uma noite sombria, na última semana de agosto de 1919, um trem especial cruzava as montanhas que separam a capital da Costa Rica, San José, da cidade portuária de Puerto Limón. Com as luzes apagadas, o comboio levava para o exílio, em Paris, a família do ex-presidente Federico Tinoco Granados, que havia renunciado em meio a uma aguda crise política no dia 20 daquele mês.
No chão do trem, além de Tinoco e de sua família, se encontrava o jovem diplomata brasileiro José Amaral Murtinho — que se tornaria um lendário embaixador no Equador — e sua esposa, Ada Fernández Le Cappellain, cunhada de Federico Tinoco. Ela segurava o pequeno Wladimir, que tinha apenas três meses de vida. Momentos de tensão se espalhavam ao longo da ferrovia, com grupos de revoltosos armados disparando contra o trem presidencial. Mal havia chegado ao mundo, Wladimir Murtinho já iniciava sua primeira grande aventura.
As marcas de desentendimentos políticos, tradições e uma intensa vida cultural definiriam a trajetória de Wladimir Murtinho. Por parte de mãe, ele era neto de Dom Mauro Fernández Acuña, uma figura influente como ministro, parlamentar e educador, responsável por uma reforma educacional que colocaria a Costa Rica como a nação mais avançada da América Central. No Brasil, a família Murtinho tinha uma história de destaque desde o início da República, com Joaquim Murtinho atuando como ministro da Viação e Obras Públicas no governo Prudente de Morais, além de ter sido ministro da Fazenda durante o governo Campos Sales.
No início da década de 1940, com apenas 21 anos, Wladimir Murtinho iniciou sua carreira no Itamaraty. Fluente em francês, inglês e espanhol, ele tinha uma paixão por ginástica rítmica e velejar — um hobby que adquiriu na Noruega. Em 1944, casou-se com Maria Antonieta Prado Uchoa, conhecida como Tuni, que era artista plástica e gravurista e também herdeira de duas importantes linhagens paulistas: os Silva Prado e os Álvares Penteado. Entre os anos 1940 e a primeira metade da década de 1950, o casal viveu em diversos países, incluindo França, Venezuela, Canadá e Suíça.
Foi sob a influência de Tuni que Wladimir Murtinho começou a deixar sua marca na memória, arte e cultura brasileiras. Durante a primeira Exposição Internacional de Arte Moderna no Brasil — a Bienal, idealizada por Ciccillo Matarazzo e realizada em outubro de 1951 no Pavilhão do Belvedere Trianon, na Avenida Paulista — a astúcia e sensibilidade de Murtinho já eram notórias. Desde esse momento, ele e Tuni passaram a estar presentes nas principais cenas culturais do Brasil, especialmente na construção de Brasília como a nova capital da República, concebida como um espaço para todos os brasileiros, e não apenas para visitantes temporários.
Wladimir Murtinho destacou-se em várias frentes, como no Instituto Nacional do Livro, na organização do Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de 1958 em Bruxelas e na facilitação da visita acadêmica de Sérgio Buarque de Holanda à Europa na década de 1950, que abriu novas portas para a produção acadêmica nacional. Também teve papel crucial na criação do Museu Aberto do Descobrimento, no sul da Bahia, e na fundação do Centro Nacional de Referência Cultural, que mais tarde se tornaria a Fundação Pró-Memória e, posteriormente, o Ministério da Cultura.
Seu envolvimento com Brasília se intensificou após ser nomeado membro da Comissão de Estudo e Planejamento do Edifício do Ministério das Relações Exteriores em 1958, além de participar do Grupo de Trabalho para a Transferência para Brasília em 1959. Durante esse período, ele dirigiu a Divisão de Comunicação do Itamaraty, utilizando ferramentas institucionais para enfatizar a importância dessa significativa mudança.
Entre 1963 e 1969, quando presidiu a Comissão de Transferência do MRE e do Corpo Diplomático para Brasília, Murtinho consolidou seu talento excepcional. Em parceria com figuras como Oscar Niemeyer, Milton Ramos e Burle Marx, ele desempenhou um papel fundamental na construção e ornamentação do Palácio dos Arcos — Palácio do Itamaraty — que se destaca pela fusão refinada de história, arte e arquitetura do Brasil. Este é um tema que merece um olhar mais minucioso e cuidadoso.
Wladimir Murtinho também deixou um legado na Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal, onde atuou de 1975 a 1978. Durante sua gestão, foram concluídos o Teatro Nacional e salas de teatro em Taguatinga e Ceilândia; o Cine Brasília foi restaurado e se tornou a maior sala de cinema do país; o Festival de Cinema de Brasília foi reativado; e o Teatro Galpão — hoje Centro Cultural Renato Russo — foi inaugurado.
Murtinho compreendia que a harmonia de uma comunidade se constrói por meio do pertencimento e da convergência de propósitos, que não se desenvolvem sem memória e história. E estas se solidificam por meio da arte, literatura, música e outras expressões culturais. Essa soma de elementos define o que chamamos de cultura, sendo o espaço em que ela se manifesta sua maior estética.
