Violência contra mulheres no Distrito Federal: um panorama alarmante
Uma pesquisa inédita do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), divulgada na última sexta-feira (12), revela que 77,6% das mulheres brasilienses já enfrentaram algum tipo de violência ao longo da vida. O estudo, intitulado Panorama da Violência Contra a Mulher, demonstra um cenário preocupante, marcado pela naturalização desses abusos. Embora mais de três quartos das entrevistadas tenham vivenciado agressões, apenas 44,8% reconheceram que foram vítimas, evidenciando a dificuldade em identificar e romper ciclos de violência.
Tipos de agressão e impacto psicológico
O levantamento destaca que a violência moral é a mais comum, afetando 62,6% das mulheres, seguida pela psicológica, que atinge 61,5%. Essas formas superam a violência física e patrimonial, que aparecem em 39,6% dos relatos. Rita Andrade, arte educadora e mestre em Política Pública, explica que a agressão física é muitas vezes apenas a manifestação visível de um processo contínuo de abuso, que inclui humilhações, controle excessivo e isolamento social. Tais práticas geram danos profundos à autonomia e à saúde mental das vítimas, configurando um ciclo complexo de violência.
“A violência psicológica e moral estão intrinsecamente ligadas à violência física, pois provocam adoecimento mental e fragilidade emocional com consequências físicas”, afirma Andrade. O estudo também aponta que 21,5% das entrevistadas sofreram agressão nos últimos 12 meses, sendo que 15,4% ainda conviviam com seus agressores no momento da pesquisa. A dependência financeira é identificada como um dos principais obstáculos para a ruptura dessas relações abusivas.
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Desafios estruturais e a necessidade de políticas públicas
Andrade ressalta que a estrutura social, que frequentemente coloca o homem como provedor, mantém muitas mulheres restritas ao ambiente doméstico. Para ampliar a autonomia feminina, ela defende políticas públicas que promovam a profissionalização, a formação com cotas específicas, a ampliação de creches públicas, educação em tempo integral e igualdade salarial. Essas medidas são essenciais para fortalecer a independência financeira das mulheres e facilitar a superação dos ciclos de violência.
Barreiras ideológicas e precariedade da rede de acolhimento
No âmbito institucional, a professora de Direito da Universidade de Brasília (UnB) Lívia Gimenes, integrante do movimento Promotoras Legais Populares (PLP), destaca as dificuldades enfrentadas para debater questões de gênero no Distrito Federal. Segundo ela, grupos de extrema direita têm associado as discussões sobre masculinidades e desigualdades ao termo “ideologia de gênero”, dificultando a conscientização sobre práticas machistas.
Além desses entraves, a rede de acolhimento para mulheres vítimas de violência apresenta problemas estruturais. Gimenes critica a falta de articulação e apoio do governo local, o que compromete a divulgação e o funcionamento eficiente dos serviços nas diferentes regiões administrativas. “Não há participação direta do governo do Distrito Federal para garantir que a rede exista, funcione e seja conhecida pela população”, afirma.
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Efeitos da violência na saúde e na família
Entre as mulheres que sofreram agressões, 93,5% relataram impactos significativos. Depressão e tristeza atingem 42,6%, ansiedade e estresse afetam 41,8%, e 25,5% mencionaram dores ou lesões físicas associadas às agressões. Rosi Costa, do Movimento Autônomo de Mães (Mama), reforça que a violência contra a mulher reverbera em toda a estrutura familiar, atingindo especialmente crianças que convivem em ambientes marcados pelo medo e pela insegurança.
“Muitas mulheres não identificam essas situações como violência porque foram ensinadas a aceitá-las como parte da vida cotidiana. O abuso começa antes da agressão física, manifestando-se no controle e na humilhação”, explica Costa. Diante da violência, 33,6% das mulheres optam pela separação ou divórcio, enquanto 32,9% buscam apoio familiar. No entanto, apenas 32% recorrem à polícia ou a delegacias especializadas, o que pode indicar desconfiança nas medidas protetivas e na responsabilização dos agressores.
Combate à impunidade e necessidade de ações integradas
Para Rosi, o enfrentamento da violência contra as mulheres exige uma abordagem ampla que inclua prevenção, educação, acolhimento, autonomia econômica e rigor na responsabilização dos agressores. “Os dados do IPEDF evidenciam que só a punição não é suficiente; é preciso garantir segurança afetiva e apoio integral às vítimas”, conclui.
