Qualidade e Valorização: O Coração da Universidade
É com um sentimento de solidariedade que me dirijo à comunidade acadêmica da Universidade do Distrito Federal (UnDF), atualmente em greve. Essa manifestação é, na verdade, uma resposta contundente à ausência de condições adequadas de trabalho e ensino, e uma crítica à falta de diálogo e democracia interna. Além disso, a greve também se opõe aos atos autoritários do Governo do Distrito Federal, sob a liderança de Ibaneis Rocha (MDB) e Celina Leão (Progressistas), assim como da gestão interina da reitoria, que permanece no cargo além do tempo estipulado.
A indagação que dá título a este artigo pode ser abordada de diversas maneiras, levando a múltiplas respostas. Contudo, todas essas possibilidades possuem um elemento em comum: as pessoas que constroem a universidade. Assim, a essência da universidade está intrinsecamente ligada à sua comunidade.
Alguns críticos podem argumentar que uma universidade é composta por salas de aula, gabinetes e materiais didáticos. No entanto, defendo que, antes de qualquer estrutura física, uma universidade é feita por pessoas. Disso, não se pode discordar; as ferramentas e a infraestrutura possuem sua importância, claro, mas são insuficientes sem a presença de indivíduos engajados. O giz não escreve sozinho, e o quadro não se preenche por inércia.
Particularmente em uma instituição pública como a UnDF, a comunidade acadêmica é o verdadeiro coração da universidade. Isso inclui estudantes, professores e funcionários administrativos, além da própria comunidade que é beneficiada quando a universidade ultrapassa suas barreiras, tanto físicas quanto simbólicas.
A razão de existir da universidade, sua missão e futuro, repousam nas pessoas que dela fazem parte, e é essencial que esse potencial humano seja cultivado. Se a luta pela valorização das pessoas é o que torna uma universidade verdadeira, isso implica também em condições adequadas para que esses indivíduos se desenvolvam plenamente.
Entretanto, a UnDF já se inicia em uma situação de desvantagem, tendo em vista que sua constituição se dá sem alguns elementos essenciais. Por exemplo, não há uma carreira específica para os Técnicos Administrativos em Educação (TAE), cujas funções são exercidas por servidores emprestados da Secretaria de Estado de Educação (SEE).
Além da falta de pessoal, é alarmante observar um governo e uma administração que se posicionam contra os seus próprios membros. O cenário inclui processos administrativos contra professores que se opõem a paradigmas educacionais que não consideram a luta como parte do seu ofício. Estudantes, que aprendem e também lecionam por meio da luta, enfrentam, igualmente, este desafio.
Referindo-me a esses estudantes, a situação de inclusão se revela problemático. Existem barreiras significativas em relação ao acesso e à acessibilidade aos campi; há carência de bolsas e políticas assistenciais, e a inexistência de um restaurante universitário revela mais lacunas na estrutura.
Recentemente, surgiram notícias preocupantes que indicam que o GDF reteve R$219 milhões que deveriam ser repassados à UnDF. Esse montante representa uma oportunidade perdida de investir na permanência estudantil, em iniciativas de pesquisa e extensão, que poderiam beneficiar tanto estudantes quanto docentes, assim como a comunidade mais ampla. Não se pode ignorar que o que forma a universidade são, de fato, suas pessoas.
Em uma situação em que há a retenção de recursos essenciais, ainda observamos a imposição de regras que se disfarçam como obrigações, e a truculência se torna uma ferramenta para criar falsos consensos, tudo isso sob a alegação de gestão. O que se consolida na UnDF é uma cultura de precarização e controle, que gera um ambiente de insegurança e temor.
A universidade, enquanto espaço de conhecimento e formação, deve ser um local de crítica e debate. As críticas dirigidas à administração, mesmo que severas, são expressões de um desejo legítimo de melhoria e reforma. Quando se critica, isso revela uma esperança de que a realidade possa ser transformada. Portanto, é essencial que essas vozes sejam ouvidas e valorizadas.
É vital lembrar que nem todas as manifestações pedem acolhimento. Não se deve aceitar práticas que atentem contra a dignidade humana. Assim, as reivindicações que emergem da greve na UnDF não são opressivas; pelo contrário, buscam desafiar as estruturas de desumanização e opressão.
As lutas são reflexo das contradições de uma sociedade que ainda enfrenta desigualdades estruturais. Portanto, a busca por uma universidade mais inclusiva e mais respeitosa com a sua gente é também um chamado por uma transformação social mais ampla. As universidades públicas, embora tenham avançado em termos de democratização, ainda carregam traços do passado e precisam evoluir.
Como o falecido Carlos Nelson Coutinho já afirmou, a democratização é um valor universal e deve ser o nosso ponto de partida e nosso objetivo. A atual gestão e a reitoria da UnDF parecem, ao contrário, promover uma pedagogia que se opõe à autonomia e à liberdade da comunidade acadêmica. Elementos básicos do funcionamento democrático, como conselhos deliberativos, ainda não foram implementados, o que é inaceitável em uma instituição pública.
Para complicar a situação, recentemente, foi revelado um escândalo envolvendo aluguel de instalações do Iesb na Ceilândia, totalizando R$110 milhões por um contrato de cinco anos, sem licitação e sem o devido diálogo com a comunidade. Esse valor, que deveria ser investido na UnDF, foi direcionado a uma instituição privada, mostrando uma falta de compromisso com a comunidade acadêmica.
Além de transferir recursos, essa gestão parece tratar as pessoas como objetos a serem realocados conforme a conveniência do governo. Estudantes afirmam que a maioria deles é contra essa realocação, temendo que isso intensifique a evasão escolar. O desprezo por aqueles que realmente constituem a universidade é alarmante.
Ainda que a UnDF deva estar enraizada em todo o Distrito Federal, isso não justifica uma movimentação sem o devido planejamento e diálogo, perdendo mais uma vez a chance de ouvir sua comunidade acadêmica e reafirmando sua desconsideração pela autonomia e voz dos envolvidos.
O governo e a reitoria precisam aprender o que realmente significa ser uma universidade. Não existe vergonha em não saber; a verdadeira vergonha está na vontade de permanecer na ignorância. Contudo, sempre é possível aprender. Recomendo que tanto o governador quanto a reitoria da UnDF olhem para a realidade da comunidade acadêmica que ignoram e que frequentemente tratam como oposições. Devem se inspirar na luta de seus estudantes e professores, pois essa luta é educativa e transformadora.
A luta não apenas ensina, mas também transforma. Portanto, se a UnDF deseja ser uma universidade verdadeira, precisa ser acolhedora e valorizadora de sua comunidade. A greve atual, embora ainda no início, já se revela uma oportunidade de aprendizado sobre o que a UnDF é, o que não é e o que pode se tornar. O governo do Distrito Federal e a reitoria devem aproveitar essa chance para entender melhor sua comunidade. Vale lembrar que, em uma universidade pública, muitas das lições mais importantes ocorrem fora das salas de aula.
Todo apoio à greve da UnDF! Somente a luta poderá transformar realidades!

