Apoio Psicológico em Momentos de Luto

Em um ambiente acolhedor na UBS Jardim Colombo, na zona oeste de São Paulo, o jovem Wellington Barreto dos Santos, de 25 anos, espera compartilhar suas emoções. Durante uma das sessões do grupo de apoio ao luto que é conduzido pela psicóloga Pamella Becegati, de 31 anos, ele escolheu a canção “Girassol”, de Priscilla Alcântara e Whindersson Nunes, como forma de expressar seu desejo de reencontrar a felicidade.

Wellington, que entrou para o grupo há aproximadamente quatro meses após perder duas tias e um amigo, revela como a dor da perda impactou sua vida. “Uma das tias eu perdi há cinco anos. Nós tínhamos um vínculo muito forte, cheio de amor e planos. Levo o retrato dela em todas as minhas viagens. A outra tia eu a encontrei morta em casa. Foi como arrancar um pedaço do meu coração. O meu amigo morreu em um acidente, cheio de vida e sonhos”, conta emocionado.

Sobre o processo de luto, ele diz: “Sofri calado durante muito tempo, sem contar nem mesmo aos meus pais. Fiquei trancado em meu quarto. Aqui [no grupo] encontrei apoio e consegui ver a vida de novo. Hoje, consigo reviver os momentos que tive com essas pessoas sem medo das crises de ansiedade”.

Reflexão Através da Música

A psicóloga Pamella explica que a música se torna um poderoso instrumento de reflexão durante as sessões. “Qual foi o primeiro pensamento que tiveram? Que experiências a música trouxe? Quais memórias são evocadas?”, questiona, estimulando os participantes a se conectarem com seus sentimentos.

O luto é um processo complexo que envolve reações emocionais, físicas, comportamentais e sociais decorrentes de uma perda significativa. Segundo o Ministério da Saúde, o luto prolongado é reconhecido como um transtorno mental. Por isso, a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo disponibiliza apoio psicológico para aqueles que necessitam.

Na UBS, os atendimentos são realizados por uma equipe multiprofissional, frequentemente com a presença de assistentes sociais que facilitam o encaminhamento dos pacientes para a rede de saúde. Massumi Hirota Tunkus, de 65 anos, é um exemplo de quem encontrou apoio nesse grupo. Após a morte do marido há 18 anos, ela nunca havia conseguido viver seu luto de forma plena, dedicando-se aos filhos e à mãe que sofreu um AVC antes de seu casamento.

“Estava estagnada e com conflitos não resolvidos. Cheguei ao grupo há três meses e encontrei uma verdadeira família. Aqui, ninguém me recrimina. Todos estamos no mesmo barco”, afirma Massumi, aliviada por poder compartilhar sua dor.

Encontros que Fortalecem

Outro relato é o da aposentada Solange Maria de Assunção Modesto, de 61 anos, que enfrenta a dor da perda da irmã, que faleceu após um transplante de medula óssea. “É como se tivesse partido um pedaço de mim. As dinâmicas de grupo ajudam muito. Antes, eu não conseguia nem tentar me conformar, mas agora sinto que estamos todos juntos nessa jornada”, ressalta ela.

Durante as reuniões, os participantes são convidados a segurarem pinhas de eucalipto, um exercício simbólico que os incentiva a refletir sobre suas emoções. “A missão é olhar para dentro das pinhas e pensar sobre como estão por dentro. O que gostariam de mudar e por quê? Isso envolve questões de liberdade e paz”, explica Pamella.

Maria Neuza Ferreira da Silva, de 71 anos, também compartilha sua experiência. Após perder o marido para a leucemia, ela entrou em um estado de depressão profunda. Sua filha Leirilene, de 50 anos, menciona que sua mãe se recuperou significativamente após participar do grupo. “Ela começou a sair sozinha e a retomar sua vida. Agradecemos muito à Dra. Pamella, pois foi através da terapia que ela melhorou”, destaca Leirilene.

Os encontros ocorrem nas segundas-feiras, às 16h, e duram cerca de 50 minutos. “O objetivo é promover a conexão e fortalecer os vínculos, oferecendo um espaço seguro para que as pessoas possam falar sobre o luto e elaborá-lo. Utilizo dinâmicas com girassóis, músicas, cartas, plantio de feijões e pinhas, entre outros recursos”, explica a psicóloga, enfatizando a importância de manter um diário para expressar emoções. “É um exercício onde as pessoas escrevem o que gostariam de ter dito aos que partiram, ou o quanto é difícil viver sem a presença deles”, finaliza Pamella.

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