Suspensão do Serviço e Suspeitas de Irregularidades
Após investigações do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), o serviço de adiantamento salarial oferecido pelo PicPay, um banco digital ligado ao grupo J&F, foi suspenso. O motivo? Suspeitas de que estariam ocorrendo descontos irregulares nos salários dos servidores públicos do DF. A decisão da Secretaria de Economia foi baseada em denúncias que indicaram a cobrança de taxas indevidas sob a alegação de que se tratava de uma operação sem juros.
O contrato entre o GDF e a empresa se tornou o foco de atenção da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS após o Banco Santander informar ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre transferências financeiras suspeitas realizadas pelo escritório de advocacia que leva o nome do governador Ibaneis Rocha. Esse escritório teria recebido R$ 1 milhão do grupo J&F apenas quatro dias após a formalização do cadastro do PicPay junto ao governo.
Taxas e Juros: Um Encontro Problemático
Conforme apontado pelo Tribunal de Contas, o PicPay impunha aos servidores uma chamada “taxa de antecipação” para o uso do serviço, mesmo que a empresa defendesse que a operação não envolvia juros. O tribunal, porém, afirmou que essa taxa se assemelha à cobrança de juros e deve ser considerada como tal, independentemente do nome apresentado.
Em resposta, o PicPay argumentou que, caso o servidor optasse por receber o adiantamento diretamente em sua conta, haveria uma cobrança fixa, mas que isso não deveria ser confundido com a prática de juros. A empresa negou a existência de descontos irregulares e assegurou que o adiantamento poderia ser disponibilizado sem qualquer tarifa, desde que feito através de cartão.
Crescimento da Adesão e Suspeitas de Irregularidade
Dados do TCDF revelam um crescimento expressivo na adesão ao serviço de adiantamento salarial do PicPay. Nos últimos dois anos, registrou-se uma movimentação de impressionantes R$ 81,6 milhões. Para 2024, foram R$ 11,7 milhões e, até o momento em 2025, cerca de R$ 70 milhões já foram movimentados. Para a Secretaria de Economia, essa alta adesão é atribuída ao fato de que a operação começou em outubro de 2024, ganhando notoriedade ao longo do ano seguinte.
Em razão dos achados da investigação, o Tribunal de Contas recomendou a suspensão dos novos descontos, o que foi acatado pela Secretaria de Economia. A Corte ainda propôs que o adiantamento fosse classificado como uma consignação facultativa, exigindo a autorização do servidor para a realização dos descontos.
Repasses Suspeitos e Relações Financeiras
O escritório de advocacia ligado ao governador Ibaneis Rocha recebeu substanciais valores do grupo J&F logo após o GDF autorizar o PicPay a oferecer o crédito consignado. Em doze meses, de outubro de 2024 a outubro de 2025, foram reportados pagamentos de R$ 34 milhões em 15 operações. Os registros financeiros revelam um padrão de repasses no início de cada mês, com uma significativa transferência de R$ 5 milhões no meio de dezembro de 2024.
Posicionamento das Partes Envolvidas
O PicPay, por meio de um comunicado, reiterou que o adiantamento é um serviço voluntário e não envolve descontos indevidos. A empresa destaca que os usuários podem optar por não pagar tarifas ao utilizar o cartão para realizar o adiantamento.
A Secretaria de Economia do DF também se manifestou, explicando que o termo de compromisso firmado com o PicPay tinha como objetivo oferecer uma solução de adiantamento salarial sem cobranças de juros. Este modelo, no entanto, está sob análise do TCDF, e novos adiantamentos foram suspensos até que uma decisão seja tomada.
Por sua vez, a J&F defendeu que, se as suspeitas de irregularidade configurarem quebra de sigilo bancário, isso deve ser investigado de forma rigorosa. O escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria, por outro lado, reafirma sua integridade e compromisso com a atuação ética e transparente na área jurídica.

