Crescimento Alarmante da Insegurança Alimentar
O cenário de alimentação no Distrito Federal é alarmante, apresentando o pior índice de acesso à comida nos últimos 20 anos. Enquanto o Brasil conseguiu sair do Mapa da Fome da ONU em 2025, a capital federal segue na contramão, com um aumento significativo na população sem acesso regular a alimentos. Os dados foram apresentados na última quinta-feira (7) durante o Encontro da 6ª Conferência Distrital de Segurança Alimentar e Nutricional +2, realizado na Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). Este evento contou com a participação de representantes do governo e da sociedade civil, com o objetivo de avaliar as metas do plano distrital em vigor até 2027.
De acordo com as informações divulgadas na conferência, a insegurança alimentar no DF saltou de 23,5% em 2023 para 27% em 2024. Essa estatística representa cerca de 845 mil pessoas vivendo com algum nível de restrição alimentar, quase 100 mil a mais em apenas um ano. O aumento dos índices gerou preocupação entre os especialistas, que destacam a urgência de ações efetivas para reverter essa situação crítica.
Alerta sobre Políticas Públicas
A secretária executiva da Câmara Intersetorial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan), Lidiane Pires, fez um alerta sobre os dados, enfatizando a necessidade de uma análise profunda sobre a eficácia das políticas públicas voltadas à segurança alimentar no Distrito Federal. “Estamos investigando mais a fundo a redução dos índices de segurança alimentar. Esses números indicam que algumas dimensões significativas dessa política não estão funcionando como deveriam, o que impacta diretamente o acesso da população a alimentos”, destacou.
Pires também ressaltou que a conferência tem como foco identificar os principais obstáculos que impedem a reversão do atual cenário. “Estamos discutindo questões ligadas à produção, abastecimento e sustentabilidade para entender o que deve ser ajustado a fim de promover avanços nessa área”, completou.
Fome no Centro do Poder
Os números colocam o Distrito Federal na posição mais crítica entre as unidades federativas das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste ao que se refere ao acesso à alimentação adequada. Igor Chianca, diretor do Sindicato dos Servidores da Assistência Social (Sindsasc), classificou a situação como um retrocesso social alarmante. “No momento, apenas 73% da população do DF está em situação de segurança alimentar”, afirmou.
Chianca também chamou a atenção para as situações mais graves, que são classificadas como insegurança alimentar moderada ou severa, afetando 9% dos lares no DF. “Quando mencionamos insegurança alimentar moderada e grave, estamos falando de fome”, ressaltou, destacando a seriedade do problema.
Embora o Distrito Federal possua a maior renda domiciliar per capita do Brasil, a desigualdade social é uma realidade evidente, refletida pelo maior Índice de Gini do país. A disparidade entre as regiões administrativas é alarmante; enquanto no Lago Sul a renda média por pessoa chega a R$ 15.780, em áreas como Fercal e Sol Nascente, os números ficam abaixo de R$ 1 mil.
Para Chianca, esse contraste expõe uma desigualdade histórica que muitas vezes é ignorada pelas autoridades. “Há um Distrito Federal que frequentemente não é visível. A realidade de quem enfrenta a fome diariamente está distante dos centros de poder e decisão”, observou.
Prioridade na Agenda Política
No decorrer do encontro, os representantes reafirmaram a importância de colocar o combate à fome como prioridade na agenda do governo local. Lidiane Pires afirmou que a conferência também visa revisar as metas que não foram alcançadas nos últimos anos. “Este é um espaço para avaliar o que precisa ser repactuado, desbloqueado ou reformulado para que as metas estabelecidas até 2027 possam ser cumpridas”, explicou.
Documentos apresentados durante o evento revelaram que o Distrito Federal já teve índices de segurança alimentar muito melhores. Em 2013, por exemplo, 86,7% da população estava em situação de segurança alimentar. Ao final da conferência, Igor Chianca defendeu que o fortalecimento das políticas públicas é essencial para enfrentar a fome. “Quando o direito humano à alimentação adequada é tratado como prioridade, é possível combater a fome de maneira efetiva”, finalizou.
Procurado para comentar o aumento da insegurança alimentar, o Governo do Distrito Federal (GDF) não respondeu até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestações.
