Hostilidade surpreende comunidade venezuelana

A comunidade venezuelana, que reside pacificamente há mais de uma década na Região Administrativa de São Sebastião, no Distrito Federal, enfrenta um clima de medo após atos de vandalismo ocorridos na última quarta-feira. Várias casas amanheceram com pichações que expressam um forte tom xenofóbico, chocando moradores e chamando a atenção de organizações não-governamentais (ONGs) que atuam na defesa dos direitos dos imigrantes. Esse episódio levanta preocupações sobre como o sentimento de ódio, que cresce em várias partes do mundo, pode afetar a imagem do Brasil, tradicionalmente visto como um dos países mais acolhedores para imigrantes.

“Fora venezuelanos” era uma das mensagens visíveis em várias paredes, complementada por frases que mencionavam o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. As mensagens de ódio se repetiam em diferentes locais, levando um grupo de moradores a registrar um boletim de ocorrência na 30ª Delegacia de Polícia. Apesar de não ter havido novos atos de vandalismo, a sensação de insegurança persiste entre os venezuelanos, que temem cruzar as ruas e encontrar o autor das pichações, cuja identidade ainda é desconhecida.

Sentimentos de insegurança e apoio comunitário

Um residente da comunidade, que pediu para não ser identificado por questões de segurança, expressou seu receio: “A região onde as pichações ocorreram é bastante isolada, então estamos apreensivos em sair e enfrentarmos possíveis agressões.” Outro membro da comunidade, uma mulher que assume um papel de liderança, ressaltou que este foi o primeiro episódio de xenofobia após 10 anos de convivência pacífica. Ela enfatizou a gratidão pela acolhida recebida ao longo dos anos, mas não pôde deixar de mencionar o impacto que esse episódio trouxe para a comunidade.

“Embora tenhamos sempre reconhecido o acolhimento em São Sebastião, essas pichações nos deixaram muito assustados. Minha experiência de oito anos aqui nunca havia sido marcada por um ato de hostilidade como esse”, afirmou.

Reações de líderes e instituições

O incidente atraiu a atenção de diversas instituições e líderes que lidam com a questão da migração no Brasil. Dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), expressou preocupação com a possibilidade de escalada do discurso de ódio no país. “Esse tipo de ato reflete a polarização que vemos globalmente. O crescimento da xenofobia não é um problema exclusivo do Brasil. Precisamos abordar essa questão e mudar a narrativa”, destacou.

Dom Ricardo sugeriu que, em vez de se concentrar nas pichações hostis, a sociedade brasileira deve trazer à tona a importância dos imigrantes e sua contribuição positiva. “Quando o Brasil oferece uma acolhida adequada e as condições necessárias para que essas pessoas se desenvolvam, isso realmente faz a diferença”, completou.

Iniciativas em meio à crise

Em Brasília, um dos projetos que busca promover a inclusão dos venezuelanos é a Casa Bom Samaritano, coordenado pela CNBB. Essa iniciativa tem se mostrado eficaz, com cerca de 90% das famílias acolhidas conseguindo acesso a moradia, trabalho e educação para os filhos. Dom Ricardo ressaltou que, apesar das dificuldades financeiras enfrentadas, especialmente após cortes de recursos provenientes do governo dos Estados Unidos, o projeto continua a se manter ativo graças ao apoio de outras nações.

Desafios na percepção pública

De acordo com a pesquisa Global Advisor da Ipsos de 2025, o Brasil se destaca por suas atitudes favoráveis em relação aos migrantes. Aproximadamente 79% dos brasileiros acreditam que pessoas devem ter o direito de buscar refúgio no país, superando a média global de 67%. O país também apresenta o menor índice de apoio ao fechamento de fronteiras entre os 29 países analisados.

Contudo, Miguel Pachioni, porta-voz da Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) Brasil, alertou para o risco de que narrativas negativas influenciem a percepção pública. Ele fez um apelo para que a humanidade das pessoas em situação de vulnerabilidade seja reconhecida, e não transformadas em um “grupo homogêneo” que pode ser alvo de hostilidade. “A normalização de discursos xenofóbicos, independentemente da nacionalidade, é um problema que precisa ser enfrentado”, lamentou.

É hora de agir

O padre Jerfferson Amorim de Souza, diretor do Serviço Jesuíta de Migrantes e Refugiados (SJMR), também se manifestou sobre a gravidade da situação. Ele enfatizou que as pichações demonstram um padrão preocupante que pode reverberar no Brasil. “Precisamos ficar atentos para que não se estabeleçam políticas de perseguição e violência. A convivência pacífica deve ser a prioridade”, afirmou.

Dados do relatório “Refúgio em Números 2025” revelam que os venezuelanos lideram as solicitações de refúgio no Brasil, representando quase 40% dos pedidos. Entre 2018 e 2025, mais de 156 mil migrantes foram acolhidos pelo Brasil, demonstrando o comprometimento do país com a proteção e integração de refugiados, mesmo diante de crescentes desafios sociais e políticos.

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