Os Desafios e a Magia da Ópera no Scala de Milão
Fortunato Ortombina, atual diretor-geral do Teatro Scala de Milão, compartilhou reflexões sobre a importância da ópera em uma entrevista recente. Atraindo a atenção pela sua trajetória, Ortombina, que havia ocupado anteriormente a posição em La Fenice, em Veneza, desde 2017, agora assume um papel significativo na principal casa lírica da Itália, após anos de liderança estrangeira. Com um mandato que vai até 2030, ele herdou um desafio complexo de seu antecessor: a montagem de “O Anel do Nibelungo” de Wagner, que contou com regência da australiana Simone Young. O espetáculo se destacou não apenas pela grandiosidade musical, mas também pela representação visual, apesar de algumas críticas ao cenário extravagante.
A abertura da temporada foi marcada por datas de grande relevância na vida cultural de Milão, como a Semana de Moda e eventos que celebram a história da cidade, reforçando a ideia de que o Scala é uma instituição central na dinâmica da capital lombarda.
Fortalecendo as Conexões com a Cidade
Ao abordar a relação do teatro com a cidade, Ortombina enfatizou a importância da comunicação constante. ‘Não dá para desistir nunca de tentar’, afirmou ele, ressaltando que, para ele, a experiência de dirigir o Scala é única, haja vista seu conhecimento profundo da cidade e da sua cultura, adquirido ao longo de 20 anos de trabalho anterior na instituição. Para Ortombina, a ópera não é apenas uma forma de arte, mas uma ponte que liga diversas vozes e narrativas, representando um patrimônio cultural comum a todos.
Ele também sublinhou a relevância da ópera como um meio de expressão transcultural: ‘A ópera é a linguagem mais transversal para todas as civilizações. Não existe na face da Terra quem nunca ouviu uma nota de Puccini’, argumentou, enfatizando o impacto que as obras clássicas ainda exercem na cultura moderna.
A Ópera como Reflexão da Sociedade Atual
Outra questão levantada foi como a ópera pode se atualizar para oferecer uma experiência significativa ao público contemporâneo, especialmente em um mundo onde as redes sociais e a cultura de massa dominam. Ortombina, porém, acredita que o Scala tem conseguido atrair um público fiel e entusiasta, mesmo após os desafios impostos pela pandemia. ‘Temos mais público do que antes’, destacou, reforçando o compromisso da instituição em manter a excelência da apresentação ao vivo, algo que os espectadores ainda valorizam profundamente.
Ele também se mostrou otimista com a possibilidade de novas criações para o repertório da ópera, mencionando o sucesso de “O Nome da Rosa” e a receptividade do público a obras contemporâneas que dialogue com clássicos literários e cinematográficos. Essa troca entre passado e presente é vista por Ortombina como essencial para o futuro da ópera.
Possibilidades de Intercâmbio Cultural com o Brasil
No que diz respeito ao potencial intercâmbio cultural com o Brasil, Ortombina reconhece a importância de compositores como Carlos Gomes, mencionando que a conexão entre Brasil e Itália poderia render frutos artísticos valiosos. A riqueza da literatura brasileira, como a obra de Jorge Amado, poderia fornecer material inspirador para novas produções, além de refletir sobre a complexidade da identidade cultural.
Riscos e Oportunidades em Tempos de Polarização
Por último, ao ser questionado sobre os riscos de produzir arte em tempos políticos polarizados, Ortombina respondeu que é fundamental saber o que se está arriscando. Ele ressaltou que, apesar das incertezas, a música e a arte em si têm um papel soberano e transformador, capaz de superar crises e unir pessoas. ‘Estar em casa que existe há 200 anos, com um público sensível à música, é um compromisso que nos incentiva a seguir em frente’, concluiu, reafirmando seu otimismo quanto ao futuro da ópera.

