Ondas de Calor Ameaçam a Europa e Reforçam a Escassez de Ar-Condicionado

A Europa tem enfrentado nas últimas semanas uma onda de calor intensa que quebrou recordes históricos de temperatura e já causou a morte de pelo menos 50 pessoas. Essas temperaturas extremas, que devem persistir por algum tempo, são um reflexo das mudanças climáticas que vêm alterando o clima do continente, tornando eventos assim mais frequentes e desafiando a adaptação da população.

Nas ruas, os europeus recorrem a métodos improvisados para amenizar o calor, como o uso de guarda-chuvas para sombra, fontes de água para refrescar-se e banhos em rios e lagos, que infelizmente têm resultado em acidentes fatais por afogamento e choques térmicos. Dentro de casa, ventiladores, banhos frios e bolsas de gelo são as principais alternativas, já que o ar-condicionado ainda é uma raridade nas residências do continente.

Por Que o Ar-Condicionado é Pouco Comum na Europa?

Dados indicam que apenas cerca de 20% das casas europeias possuem ar-condicionado, conforme reportagem da CNN internacional. A ausência desse equipamento faz com que empresas reduzam jornadas ou permitam o trabalho remoto em dias muito quentes, enquanto escolas chegam a dispensar alunos e casas de repouso buscam soluções alternativas para manter os idosos frescos. Até hospitais enfrentam limitações, com muitos deles sem aparelhos de ar-condicionado.

Historicamente, a necessidade por refrigeração era baixa em grande parte da Europa, especialmente no Norte, devido às temperaturas amenas. Ondas de calor existiam, mas não com a intensidade e duração que se observa hoje. Por isso, o ar-condicionado sempre foi visto como um luxo, e não uma necessidade básica. Além disso, os custos elevados de instalação e energia, que são superiores aos praticados nos Estados Unidos, e a renda relativamente menor da população dificultam ainda mais a adoção em larga escala.

Arquitetura e Desafios para a Instalação

Outro fator que explica a baixa presença do ar-condicionado está na arquitetura tradicional europeia. No sul, onde o calor é mais intenso, construções com paredes espessas e janelas pequenas ajudam a manter o ambiente fresco. Já em outras regiões, as casas não foram projetadas para enfrentar o calor extremo. Como explica Brian Motherway, chefe do Escritório de Eficiência Energética da Agência Internacional de Energia, “não tínhamos o hábito de pensar em como nos manter frescos no verão. É um fenômeno recente”.

Além disso, muitas edificações são antigas e não foram planejadas para receber sistemas de ar-condicionado, o que encarece e dificulta a instalação. Na Inglaterra, por exemplo, uma em cada seis residências foi construída antes de 1900, e autoridades frequentemente negam pedidos de instalação para preservar a estética, especialmente em áreas de proteção arquitetônica ou prédios tombados.

Mudanças na Demanda e Perspectivas para o Futuro

Com o aumento das ondas de calor e o aquecimento do continente ao dobro da velocidade do restante do mundo, a percepção sobre o ar-condicionado está mudando rapidamente. Consumidores e empresas europeias estão adquirindo mais aparelhos, tanto portáteis quanto fixos. Segundo a Samsung Electronics, mercados como Itália, Espanha e França registraram crescimento de dois dígitos nas vendas no primeiro semestre de 2024, com previsão de alta contínua durante a temporada de calor.

Um relatório da Agência Internacional de Energia projeta que o número de aparelhos de ar-condicionado na União Europeia deve mais que dobrar até 2050, alcançando 275 milhões. Como ressalta Yetunde Abdul, diretora do UK Green Building Council, “nossas casas precisam ser resilientes não apenas ao frio, mas também ao calor cada vez mais brutal”. Essa transição representa um desafio para a infraestrutura, a economia doméstica e as políticas públicas, que precisarão acompanhar essa nova realidade climática e seus impactos práticos no dia a dia dos europeus.

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