O Candangão e a Nova Face do Futebol no DF
O Campeonato Candango, tradicionalmente visto como um espaço para jogadores experientes, está passando por uma transformação significativa. Em cada nova temporada, a elite do Distrito Federal dá sinais de que busca se reinventar, se afastando do estigma de ser apenas um torneio de refúgio. Após duas rodadas emocionantes, que antecedem a terceira, marcada para esta quarta-feira com a chamada “superquarta”, a competição ganha destaque pelo número crescente de atletas nascidos no século atual. Os torcedores observam essa mudança com expectativa.
Um levantamento realizado pelo Correio revela que 40,41% dos jogadores que participaram do Candangão 2024 nasceram após o ano 2000. Isso representa 78 jovens em um total de 193 atletas utilizados pelos dez clubes que disputam o torneio. Os números são expressivos, especialmente para uma competição que, historicamente, é associada à experiência dos jogadores. Com essa nova realidade, o Campeonato Candango supera até mesmo competições tradicionais como o Campeonato Paulista, que apresenta 37,5% (126 de 336) de atletas formados após os anos 2000.
Comparações com Outros Campeonatos Regionais
O cenário do DF se destaca levemente abaixo do Campeonato Carioca, que apresenta a impressionante marca de 50,43% (117 de 232) de jogadores jovens. Contudo, é importante notar que no torneio do Rio de Janeiro, as escalações alternativas são permitidas até a terceira rodada, o que pode influenciar a presença de jovens em campo. Por exemplo, o Flamengo iniciou sua trajetória na competição com um elenco completamente formado por atletas sub-20. À medida que as formações principais dos grandes clubes entram em campo, a expectativa é que o percentual de jovens jogadores diminua. Já no Candangão, a presença da juventude configura-se mais como uma estratégia estruturada e não como uma exceção.
Entre os clubes do Distrito Federal, o Real Brasília se destaca como um verdadeiro símbolo dessa nova abordagem. O Leão do Planalto escalou 16 atletas nascidos após 2000 em sua equipe, alcançando um surpreendente índice de 94,12%. Essa escolha reflete uma política clara de aposta em jovens talentos e na formação de uma equipe competitiva, mesmo em um campeonato exigente e curto. No jogo anterior contra o Brasiliense, o jovem atacante Erick, por exemplo, estreou nos profissionais com apenas 17 anos. Em 2023, o Real Brasília se sagrou campeão local utilizando um elenco predominantemente formado por jovens talentos.
Aposta em Jovens Talentos
“Neste ano, nosso elenco foi montado considerando a filosofia e a história do clube. É um grupo jovem e altamente competitivo. O Real Brasília continua apostando nas categorias de base e em 2026 essa estratégia não será diferente. Fizemos algumas contratações pontuais, trazendo de volta jogadores que já atuaram profissionalmente e também trazendo novos talentos para o grupo”, afirmou o técnico Raphael Miranda.
A Aruc, tradicionalmente conhecida por equilibrar juventude e experiência, também mostra números animadores, com 15 jogadores nascidos após 2000 em sua escalação, totalizando 75%. O Brasiliense, seguindo uma linha semelhante, conta com 13 atletas jovens entre os 20 utilizados, representando 65% do elenco. Essa mudança de perfil é um indicativo claro de que clubes, antes conservadores em suas escolhas, estão adaptando suas apostas.
Retrospectiva dos Clubes na Competição
O Paranoá e o Samambaia apresentam uma linha intermediária no uso de jovens, com 42,86% e 42,11%, respectivamente. Em contrapartida, na outra ponta da tabela, o Brasiliense se destaca por ter um dos elencos mais experientes do torneio, utilizando apenas seis atletas pós-2000 de um total de 23, perfazendo 26,09%. Apesar desse número modesto, o clube está focado em retomar seu investimento nas categorias de base em 2023.
O Capital e o Ceilândia seguem uma trajetória semelhante, com quatro jovens atletas entre 19, representando 21,05% em cada equipe, optando por jogadores mais experientes para suportar suas campanhas. A situação mais crítica é vivida pelo Gama e Sobradinho, onde o Gama utiliza apenas dois jogadores jovens entre 18, resultando em 11,11%, e o Sobradinho, que apresentou apenas um atleta jovem entre 17, com um preocupante índice de 5,88%. Isso evidencia um foco maior em experiência e maturidade emocional como pilares fundamentais para a competição.
Um Caminho de Transformação
O panorama do Campeonato Candango indica uma mudança silenciosa, mas consistente, no perfil da competição. A cada dia, o torneio se consolida como um espaço de formação e vitrine para jovens talentos, aproximando-se de modelos adotados em centros tradicionais de desenvolvimento de atletas. A elevada presença de jogadores jovens também está alinhada às exigências do futebol moderno, que pede ritmo intenso e elencos com maior mobilidade. Com a terceira rodada se aproximando, todos os olhos estão voltados para as possíveis alterações nas escalações. Se os atuais números se mantiverem, a elite do futebol local pode, sem dúvida, romper com rótulos históricos e se firmar como um dos regionais mais jovens do país até 2026.

