De mecânico a influenciador digital na aviação
Joselito Geraldo de Sousa, conhecido como Lito Sousa, tinha 43 anos quando decidiu compartilhar seu conhecimento sobre aviões na internet. Com mais de 20 anos de experiência como mecânico internacional de aeronaves, acumulou vivências em aeroportos e hangares que poucos conhecem. Em 2010, criou o canal Aviões e Músicas no YouTube, onde explicava o funcionamento das aeronaves, relatava histórias dos bastidores da aviação e respondia dúvidas sobre a segurança dos voos, tema que gera apreensão em muitos passageiros.
O canal ganhou destaque rapidamente. Aos 59 anos, Lito reunia mais de 3,7 milhões de inscritos, tornando-se uma referência no Brasil para quem busca entender mais sobre o universo da aviação, especialmente por sua linguagem acessível e didática.
Uma carreira dedicada à segurança aérea
Antes de se tornar figura conhecida na internet, Lito construiu uma sólida carreira na aviação. Aos 19 anos, ingressou na Varig enquanto ainda estudava, após curso técnico pela Força Aérea Brasileira (FAB). Em publicações, recordava as longas jornadas, as folgas curtas e o aprendizado constante sobre a importância da segurança. Sua dedicação o levou a se tornar inspetor em menos de dois anos e a trabalhar por 25 anos na United Airlines.
Em 2004, criou o blog Aviões e Músicas, motivado pela forma como a aviação era retratada na mídia. Seis anos depois, migrou para o YouTube com um vídeo simples, mas que chamou atenção: uma entrevista sobre um avião experimental em uma feira em São Paulo. Seu foco sempre foi traduzir temas técnicos para o público geral, abordando turbulências, ruídos, funcionamento dos motores e procedimentos de emergência.
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Expansão para outras mídias e novos projetos
O sucesso do canal impulsionou Lito a produzir conteúdos também para Instagram e TikTok, além de atuar como especialista em programas de TV e podcasts. Em 2019, lançou o livro Onde Morrem os Aviões, narrando sua experiência ao acompanhar aeronaves Electra da Varig vendidas para o Zaire, atual República Democrática do Congo, onde treinou mecânicos locais.
Em 2021, aos 53 anos, decidiu se tornar piloto. A motivação surgiu após críticas de seguidores que questionavam sua autoridade para falar sobre o tema sem a licença. Ele então documentou o processo em uma série no YouTube, culminando no voo solo em São José dos Campos, que alcançou quase 1 milhão de visualizações. No mesmo ano, fundou a Lito Aviation Academy com sua esposa Mila Seidl, voltada à formação de profissionais da aviação, além de criar um curso para pessoas com medo de voar.
Diagnóstico e a luta contra uma doença rara
Nos últimos meses de vida, a saúde de Lito tomou o centro das atenções. Em julho, revelou ter câncer de próstata e uma inflamação no sistema nervoso. Em agosto, Mila anunciou o diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma enfermidade neurodegenerativa rara, de evolução rápida e causada pelo acúmulo anormal de proteínas chamadas príons. A DCJ tem incidência baixa, com 1 a 2 casos por milhão de habitantes por ano, e ainda não possui tratamento aprovado para interromper sua progressão.
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Diante do diagnóstico, Lito tornou-se voz importante para esclarecer dúvidas e reduzir o medo associado a doenças e voo. Em setembro, chegou a receber doses de um medicamento experimental, ALN-6457, desenvolvido pela Regeneron Pharmaceuticals, nos Estados Unidos. No dia 1º de outubro, o perfil oficial de Lito no Instagram anunciou sua morte com uma homenagem emocionada.
Legado e impacto na comunidade da aviação
Lito Sousa deixa um legado de conhecimento acessível e paixão pela segurança aérea. Sua trajetória mostra como a dedicação a um tema complexo pode se transformar em serviço público, ajudando milhões a entender melhor os desafios e curiosidades da aviação. Mais do que isso, sua luta contra a doença rara trouxe visibilidade a um cenário pouco conhecido, reforçando a importância de pesquisas e apoio às pessoas afetadas.
Para quem acompanha a aviação, Lito será lembrado como um profissional que uniu experiência técnica e comunicação para desmistificar o voo e tornar a informação mais próxima do público. Sua história reforça a relevância da saúde pública e da ciência no enfrentamento de doenças graves, um alerta para o investimento em tratamentos e pesquisas que beneficiem a população.

