As Raízes dos Migrantes em Brasília

Com uma vista impressionante, Brasília se apresenta como um símbolo de esperança e transformação. Desde sua construção, a capital recebeu milhares de brasileiros de diversas partes do país, cada um trazendo suas histórias, sotaques e expectativas. O G1 coletou relatos de migrantes que viveram a construção da cidade e aqueles que chegaram em épocas mais recentes, mostrando um panorama das experiências de quem se deslocou para a região em busca de novas oportunidades.

De acordo com o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IpeDF), quase 3 milhões de pessoas habitam o DF, sendo que mais de 1,2 milhão nasceu em outros estados. As razões que motivaram essas migrações variam, mas as mais comuns foram acompanhar a família (36,6%) e a busca por trabalho (29,3%).

O antropólogo e historiador Paíque Santarém, professor da Universidade de Brasília (UnB), resume bem a experiência de ser um migrante em Brasília. “Aqui é uma cidade de saudade, onde pessoas de diferentes terras se encontram e constroem suas vidas em meio a estranhos. É um espaço que oferece acolhimento, mas também apresenta formas de distanciamento”, explica.

As Diversas Perspectivas sobre a Cidade

As histórias dos migrantes são tão diversas quanto as razões que os levaram a Brasília. Para alguns, a cidade representa um lar acolhedor e a realização de sonhos, enquanto outros sentem a frieza da arquitetura e das relações interpessoais na capital.

“A migração aqui ocorreu de várias maneiras. Muitas pessoas vieram para trabalhar na construção da cidade, outras fugiram de situações difíceis em suas cidades natais, e algumas enxergaram em Brasília uma chance de reescrever a trajetória de suas famílias”, destaca Santarém.

Relatos de quem se Adaptou à Capital

Histórias como as de José Jorge Cauhy, que deixou Uberlândia (MG) em 1957 na esperança de ‘fazer a vida’, e José Geraldo Gonçalves, que se mudou com a família de Belo Horizonte (MG) em 2013 para trabalhar, ilustram a determinação e os desafios enfrentados pelos migrantes. Por outro lado, Rômulo Barbosa Neves, um advogado que veio do Rio de Janeiro em 2025, compartilha suas percepções sobre os choques culturais que encontrou. “O clima é louco. Durante o dia é um calor intenso e à noite faz frio. E a questão dos endereços aqui é complicada; você precisa ser preciso, uma letra ou um número errado e pode acabar em outra quadra”, conta.

A arquiteta Augusto Guimarães, que chegou a Brasília em 1957 a convite de Lúcio Costa, também relembra os desafios encontrados por aqueles que vieram para contribuir na construção da nova capital. Já Júlia Soares Domingues, uma fonoaudióloga que chegou de Guaraciaba do Norte (CE) em 2019 para estudar, destaca as dificuldades iniciais, mas com uma perspectiva otimista.

Conflitos e Sonhos na Capital Federal

O antropólogo Paíque Santarém ressalta que o Distrito Federal sempre foi um local de encontro de culturas, muito antes da construção de Brasília. Ele ressalta que, com a inauguração da capital, muitos brasileiros deixaram suas vidas para trás em busca de um novo futuro. “Brasília atrai por ser uma cidade nova, uma promessa de oportunidades. No entanto, essa atração também traz consigo uma dinâmica de conflitos e aspirações”, analisa.

Santarém menciona a jornada dos primeiros habitantes, os Candangos, que enfrentaram condições de trabalho severas e desafios imensos. Embora os migrantes atuais não enfrentem as mesmas dificuldades, eles ainda lidam com a luta por um espaço nesse novo contexto social.

“Os que chegam em busca de uma vida melhor muitas vezes encontram acolhimento em espaços comunitários, mas isso não elimina as dificuldades e os desafios de viver nessa capital”, afirma Santarém, ressaltando a resiliência dos novos habitantes de Brasília.

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