Repercussão do Comentário de Luciano Huck
Em agosto de 2025, Luciano Huck, famoso apresentador de TV e potencial candidato à presidência do Brasil, esteve no Parque Indígena do Xingu, uma das mais emblemáticas reservas indígenas do país e a primeira terra indígena oficialmente demarcada pelo governo federal. Durante a gravação de um episódio do seu programa dominical, o apresentador fez um comentário que gerou polêmica e indignação nas comunidades indígenas.
Quase quatro meses após a gravação, imagens dos bastidores, publicadas no Instagram, mostraram Huck sentado ao lado da cantora Anitta. O vídeo rapidamente se tornou viral, gerando uma série de reações negativas e evidenciando a percepção errônea que muitas pessoas não indígenas têm sobre as comunidades nativas.
No clipe, que tem aproximadamente um minuto e vinte segundos, alguns indígenas aparecem registrando o momento com seus celulares. Em determinado momento, Huck os repreende, sugerindo que o uso de celulares “limpa a cultura” e, em seguida, pede que aqueles que estão vestindo “roupas não tradicionais” se afastem. A declaração, por si só, foi amplamente criticada: “Quanto mais celular de vocês aparece, eu acho que menos é a cultura de vocês”, afirmou, explicando que a presença da tecnologia comprometeria a cultura originária.
Reação das Comunidades Indígenas
As declarações de Huck mobilizaram diversas organizações indígenas, incluindo a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), que rapidamente emitiram uma declaração conjunta. A nota, divulgada em suas redes sociais, ressaltou que os povos indígenas não existem apenas para serem fotografados ou admirados como “peças de museu”. Além disso, destacaram que a expressão “limpar sua cultura” reforça uma visão distorcida e perigosa sobre esses povos. Na legenda da publicação, reforçaram que:
“O acesso à tecnologia deve ser um direito garantido a todos os cidadãos brasileiros. Possuir um celular não torna um parente menos indígena.”
A tecnologia e a internet desempenham papéis fundamentais na luta dos povos indígenas por seus direitos territoriais. Esses recursos têm ajudado na gestão ambiental, no acesso a oportunidades educacionais e profissionais, e na comunicação entre comunidades e organizações. Além disso, possibilitam denúncias de violações que historicamente foram ignoradas.
A Apib divulgou sua indignação nas redes sociais e afirmou: “Podemos usar o que vocês usam, sem deixar de ser quem somos.” Essa frase reflete a luta por reconhecimento e dignidade no contexto da sociedade contemporânea, reforçando que ser indígena não significa renunciar à modernidade, mas sim coexistir respeitosamente em todos os aspectos da vida.
Esclarecimento de Luciano Huck
Diante da repercussão negativa, Huck utilizou seus stories no Instagram para esclarecer que suas palavras foram mal interpretadas. Ele enfatizou sua longa relação com as comunidades indígenas e destacou que a sua intenção não era impor limitações culturais. “Foi apenas uma decisão de direção de arte, um ajuste pontual dentro do contexto de um set de filmagem, nada além disso”, afirmou, tentando atenuar a polêmica gerada por suas declarações.
Localizado no estado do Mato Grosso, o Parque Indígena do Xingu abrange uma área de cerca de 27.000 quilômetros quadrados e foi reconhecido oficialmente em 1961. A área, no entanto, enfrentou diversos desafios para sua efetiva demarcação e somente foi estabelecida em 1978. Hoje, abriga uma população indígena de aproximadamente 6.177 pessoas de 16 etnias diferentes, incluindo Aweti, Ikpeng, Kalapalo, Kamaiurá, entre outras.
Dados Populacionais e Culturais
Conforme o último censo realizado pelo IBGE em 2022, o Brasil possui uma população indígena de 1.694.836 indivíduos, representando menos de 1% da população total do país, distribuídos em 391 etnias. É interessante notar que três em cada quatro indígenas declararam sua etnia, evidenciando a importância da identidade cultural nas comunidades. Essa diversidade cultural enriquece o tecido social brasileiro e, portanto, merece respeito e valorização, em vez de reducionismos que desconsideram a complexidade das vivências indígenas contemporâneas.

