Como o Conflito no Irã Afeta o Agronegócio Brasileiro

No início de março, a guerra que teve início em 28 de fevereiro gerou apreensão entre os agentes do agronegócio no Brasil. O conflito, que envolve Irã, Israel e Estados Unidos, traz à tona a preocupação com a estabilidade do sistema produtivo e comercial do setor rural brasileiro.

Uma das maiores preocupações, segundo especialistas, é a dificuldade na importação de insumos, uma vez que cerca de 80% desses produtos são adquiridos de fornecedores internacionais. O doutor em economia e docente na Universidade Federal de Goiás (UFG), Edson Roberto Vieira, destaca essa questão, ressaltando que a dependência do Brasil de insumos externos pode causar descompassos significativos na produção agrícola.

Comércio com o Irã e Números do Setor

De acordo com informações do site Comex, do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDic), as exportações brasileiras para o Irã somaram impressivos US$ 2,9 bilhões no último ano, fazendo do Irã o 31º maior cliente do Brasil, com uma participação de 0,84% nas vendas externas do país. Já as importações do Brasil do Irã foram de US$ 84,6 milhões, o que resultou em um superávit comercial de US$ 2,8 bilhões.

As exportações brasileiras para o Irã foram predominantemente compostas por milho não moído (67,9%), seguido por soja (19,3%) e açúcares e melaços (6,5%). Por outro lado, 79% das importações do Irã foram compostas por adubos e fertilizantes químicos, enquanto frutas e nozes não oleaginosas representaram 11,4% dessas compras.

O cenário do Oriente Médio é crucial na produção de fertilizantes nitrogenados, com o Irã sendo um dos principais produtores de ureia no mundo. Essa ureia, um fertilizante essencial, fornece nitrogênio, nutriente fundamental para o desenvolvimento das culturas.

Desafios Logísticos e Redução de Tráfego Marítimo

As dificuldades enfrentadas pelo Brasil para receber fertilizantes estão ligadas ao fechamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas, que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. Dados do site Portwatch, desenvolvido em colaboração com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Universidade de Oxford, mostram que o tráfego de embarcações nesse estreito despencou de uma média de 100 embarcações diárias antes do conflito para apenas quatro no dia 8 de março.

O professor Edson Roberto Vieira explica que essa interrupção nas rotas marítimas traz complicações para a chegada de ureia e enxofre, insumos essenciais para fertilizantes fosfatados. Ele observa que o impacto sobre as exportações agrícolas brasileiras tende a ser indireto, manifestando-se principalmente por meio do aumento dos custos de produção e logística, sem que haja necessariamente restrições diretas às vendas de produtos brasileiros.

Produtos Atingidos e Expectativas para o Setor

No último dia 5 de março, o diretor do Departamento de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do MDic, Herlon Alves Brandão, indicou que os principais produtos afetados pelo fechamento do estreito incluem milho, carnes bovinas e de aves e açúcar. “Os Emirados Árabes Unidos são o principal destino das exportações brasileiras na região, e o fechamento do estreito poderá afetar as rotas, pois muitos portos se localizam dentro do Golfo Pérsico”, comentou Brandão.

O Irã é, atualmente, o maior comprador do milho brasileiro, absorvendo cerca de 20% da produção nacional. A Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho) revelou que 9,08 milhões de toneladas de milho foram embarcadas para o Irã no ano passado, representando cerca de 20% de todas as exportações brasileiras desse grão.

Ainda que o agronegócio esteja monitorando de perto a situação, o setor não se encontra no período crítico de compras de fertilizantes, o que pode resultar em impactos limitados, caso o conflito se resolva rapidamente.

Possíveis Consequências Econômicas

A Abramilho destaca que o milho brasileiro é distribuído para múltiplos mercados, o que pode facilitar as exportações. Contudo, o agronegócio também precisa estar alerta para a potencial elevação da inflação no Brasil, que pode ser impulsionada pela flutuação do dólar e pelo aumento dos preços do petróleo. Essa pressão inflacionária pode ter um efeito cascata, afetando os custos para os produtores rurais.

Em um cenário macroeconômico mais amplo, Vieira alerta que um aumento significativo da inflação poderá levar o Banco Central a adotar uma postura mais conservadora em relação à taxa Selic, influenciando outros indicadores econômicos, como crescimento e emprego. É um momento de cautela e vigilância para o agronegócio brasileiro, que precisa se adaptar às mudanças rápidas do cenário global.

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