Crise no Hospital da Criança em Brasília

O Hospital da Criança de Brasília (HCB), referência em oncologia, enfrenta uma grave crise financeira que pode levá-lo ao fechamento. A situação, resultante do chamado “ajuste fiscal” aplicado pelo Governo do Distrito Federal (GDF), se agrava com a retenção de repasses essenciais. Recentemente, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) interveio após uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), determinando que o governo realizasse o pagamento de R$ 69 milhões em um prazo de 48 horas para evitar a paralisação completa das atividades da unidade.

A Secretaria de Saúde do DF confirmou, em 8 de janeiro, a liberação dos recursos. Contudo, esse valor, obtido por meio de ordem judicial, representa apenas o mínimo necessário para que o hospital possa recomeçar a oferecer seus serviços, ainda que de forma precária. Apesar do alívio momentâneo, a unidade está se recuperando de meses de descaso administrativo que resultaram no fechamento de leitos de UTI e enfermarias ao longo de 2025.

Precarização dos Serviços de Saúde

O HCB é administrado em parceria entre a Secretaria de Saúde (SES-DF) e o Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe). Este hospital conta com 52% dos leitos de UTI pediátrica disponíveis na rede pública do Distrito Federal. No entanto, a recusa do governo Ibaneis em realizar as transferências regulares de verbas não só compromete a infraestrutura do hospital, mas também coloca em risco a vida de crianças que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa realidade é um grave crime de Estado contra famílias que já enfrentam a difícil batalha contra doenças como o câncer.

O MPDFT revelou que o déficit acumulado do hospital chega a R$ 118,1 milhões, resultado de meses de inadimplência por parte do governo. Entre outubro e dezembro de 2025, o GDF deixou de repassar R$ 79,5 milhões, somados a uma dívida de R$ 38,6 milhões. Enquanto o HCB luta para se manter, o governo tenta justificar sua inação com pagamentos insuficientes de R$ 15 milhões, quantia considerada irrelevante para a retomada das cirurgias eletivas e exames necessários.

Justificativas do Governo e Realidade Fiscal

Na tentativa de justificar a situação, Ibaneis Rocha recorre a uma retórica antiga, alegando ao portal Metrópoles que a economia de Brasília depende do setor imobiliário e de serviços, e que a população precisa “apertar o cinto”. O governador ainda argumenta que os altos juros impactaram a arrecadação, responsabilizando a crise sobre os trabalhadores do DF. Contudo, essa narrativa desmorona diante dos dados que mostram um superávit de R$ 1,6 bilhão até setembro de 2025, evidenciando que os recursos existem, mas não estão sendo alocados corretamente.

Enquanto as UTIs da capital fecham, a arrecadação tributária do Distrito Federal vive um crescimento histórico que dobrou em apenas uma década. Entre janeiro e setembro de 2025, o DF arrecadou R$ 19,86 bilhões, impulsionado principalmente pelo ICMS, Imposto de Renda e ISS. Apesar de um crescimento médio de 5,8% ao ano, essa saúde financeira não se traduz em investimentos na área da saúde pública. Esta situação demonstra que o governo prioriza o equilíbrio fiscal em detrimento do bem-estar da população, especialmente das crianças.

Impactos Diretos na Saúde Infantil

Com o HCB limitando férias de funcionários e cancelando atendimentos para pacientes de outras localidades, o GDF, em contrapartida, destinou R$ 629,8 milhões a gastos não cobertos por contratos em 2024, sendo 83,4% desse valor gastos na Secretaria de Saúde, principalmente com empresas de segurança patrimonial.

A Câmara Legislativa do DF, por sua vez, também contribui para o desmonte social, ao aprovar um corte de R$ 2 bilhões nas áreas sociais, incluindo R$ 1,1 bilhão diretamente da saúde para o orçamento de 2026. A falta de concursos públicos para profissões essenciais, como psicólogos e fisioterapeutas, nos últimos dez anos resultou em uma queda de 24% nos atendimentos primários.

As consequências dessa omissão são alarmantes. Dados do painel InfoSaúde mostram que, no primeiro trimestre de 2024, o DF registrou 65 óbitos de bebês com menos de um ano, o maior número desde 2016. Mesmo com a “Política Distrital pela Primeira Infância” em vigor, o Tribunal de Contas flagrou situações críticas em maternidades, expondo a realidade de infraestrutura precária e falta de insumos destinados à saúde infantil.

Share.
Leave A Reply

Exit mobile version