Honorários em Foco
BRASÍLIA — O escritório de advocacia ligado ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), teve um desempenho financeiro impressionante, alcançando a venda de R$ 85,5 milhões em honorários para fundos associados ao Banco Master e à Reag Investimentos. Ambas as instituições estão sob investigação na Operação Compliance Zero, que apura possíveis fraudes.
Conforme revelado pelo Estadão, Ibaneis Rocha esteve à frente de uma das transações, atuando em nome do escritório. Apesar de afirmar ter se afastado da advocacia quando se elegeu em 2018, documentos indicam sua participação ativa nas negociações. Desde 2022, seu filho, Caio Barros, também integra a sociedade do escritório.
Os honorários mencionados estão atrelados a processos judiciais que servidores públicos movem contra a União. Nesses casos, os advogados do escritório de Ibaneis atuam como representantes, e parte das dívidas judiciais é convertida em honorários que o escritório vendeu aos fundos em questão, garantindo a estes último o direito de receber os pagamentos subsequentes.
Investigações em Curso
A Reag Investimentos é alvo de investigações por supostos esquemas de lavagem de dinheiro, além de conexões com atividades criminosas. Por sua vez, o Banco Master enfrenta sérias acusações de fraude financeira e, segundo a Polícia Federal, teria comercializado R$ 12,2 bilhões em créditos falsificados ao Banco de Brasília (BRB), que é controlado pelo governo do DF.
Em dezembro de 2019, o governador realizou uma transação anterior, vendendo R$ 4,4 milhões em honorários para o Fundo BLP PCJ VII. Esse negócio foi destacado pela colunista Malu Gastar, do jornal O Globo, e envolvia uma gestora que, na época, era administrada pela Planner, ligada ao empresário Maurício Quadrado. Atualmente, a gestão está sob responsabilidade da Trustee, também de Quadrado.
No último mês de setembro, Ibaneis facilitou a cessão de honorários para o Fundo Laguz I, que é administrado pela Reag, já sob investigação. Um dos repasses, que foi revelado pelo Estadão, totalizou R$ 10,4 milhões, enquanto outro somou R$ 32,5 milhões. O governador aparece registrado como representante do escritório durante essas operações.
Transações e Controladoria
As vendas efetuadas para o Fundo Laguz I geraram um montante total de R$ 42,9 milhões e foram registradas em informações que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviou à CPI do Crime Organizado, que atualmente investiga o caso Master. Essas movimentações financeiras foram sinalizadas devido a valores que ultrapassam R$ 50 mil, que devem ser reportados ao Coaf segundo a legislação pertinente.
Recentemente, em maio de 2024, a administração do escritório estava sob os cuidados do filho de Ibaneis, que repassou R$ 38,1 milhões ao Fundo Reag Legal Claims, também da Reag. Pouco tempo depois, o BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, iniciou negociações de carteiras de crédito com o Banco Master.
Somando todos os valores, o escritório de Ibaneis obteve R$ 25,5 milhões em honorários em vendas para os fundos relacionados à Reag. Desses, R$ 6,3 milhões foram destinados ao escritório do advogado Engels Muniz, que é sócio do secretário da Casa Civil do DF, Gustavo do Vale Rocha, que também participa das ações judiciais em questão. O escritório não divulgou detalhes sobre os ganhos provenientes do fundo ligado à Planner, que estava associada ao ex-sócio de Vorcaro.
Em nota, o escritório Ibaneis Advocacia justificou que a venda visava a antecipação de honorários advocatícios devidos pela União, com um deságio estipulado pelo mercado.
O Coaf indicou a existência de irregularidades na negociação de ativos do Banco Master com o BRB, que ocorreram entre 2024 e 2025. O Estadão já havia reportado que as operações incluíam a venda de créditos atribuídos a pessoas de baixa renda, que inclusive haviam recebido auxílio emergencial.

