Óbito na UPA do Recanto das Emas e a reação da comunidade
Na tarde de sábado, 20 de junho, Vilmar Santos, homem de 49 anos e aparentemente em situação de rua, faleceu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Recanto das Emas, no Distrito Federal. A comunidade local protegeu o corpo de Vilmar, demonstrando revolta diante da demora no atendimento, até a chegada da polícia. Segundo o Instituto de Gestão Estratégica em Saúde (Iges-DF), responsável pela administração das UPAs e de dois hospitais no DF, Vilmar não possuía ficha de atendimento aberta. Quando acionada pelos presentes, a equipe médica verificou os sinais vitais do paciente. Entretanto, moradores afirmam que o homem aguardava por socorro há cerca de quatro horas, denunciando lentidão no acolhimento e na classificação de risco, etapa essencial do atendimento emergencial.
Histórico de falhas e mortes nas unidades geridas pelo Iges-DF
Este caso não é isolado. Em maio de 2025, o portal Metrópoles publicou a ocorrência de quatro mortes em unidades do Iges-DF em apenas duas semanas, incluindo o caso de uma mulher que falecera enquanto aguardava transporte para exame. Em 2022, Antônio Marcos, motoboy com quadro agudo de saúde mental, morreu na UPA do Gama após ser amarrado a uma maca, sem receber a assistência necessária. Além disso, durante a pandemia de Covid-19, a morte de Janaína Araujo na fila do Centro de Referência em Assistência Social (Cras) evidenciou a negligência do Governo do Distrito Federal (GDF) na proteção de grupos vulneráveis.
Resposta governamental e críticas à gestão atual
A governadora Celina Leão (PP) se posicionou após a morte de Vilmar Santos, determinando à Secretaria de Estado de Saúde (SES-DF) e ao Iges-DF a apuração dos fatos e apontando para a responsabilização daqueles que não prestaram atendimento adequado. Contudo, seu discurso tem focado na responsabilização individual de profissionais que atuam sob condições precárias nas unidades terceirizadas do Federal (GDF), enquanto ignora questões estruturais. Nos últimos meses, Celina Leão tem retirado materiais, insumos e equipes que atendem pessoas em situação de rua para priorizar seu programa eleitoral, o GDF Na Sua Porta.
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Impacto das políticas públicas na população em situação de rua
O projeto de lei da governadora, que prevê o “acolhimento involuntário humanizado” para pessoas em situação de rua, tem sido criticado por adotar uma abordagem higienista, desarticulando a rede intersetorial de proteção e cuidados para esse grupo. A requisição de ônibus e insumos que viabilizavam o trabalho das equipes de Consultório na Rua (eCR) compromete a assistência itinerante, enquanto a governadora demonstra preocupação pública com a situação dessa população, em contraste com suas ações recentes.
Fragmentação da rede de saúde e consequências fatais
Vilmar Santos não morreu simplesmente na sala de espera da UPA. Seu falecimento reflete a ausência de acesso eficaz à Atenção Primária à Saúde (APS), agravada pela sobrecarga das Unidades Básicas de Saúde (UBS), afetadas pela interferência política e pela gestão da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). A Rede de Atenção à Saúde (RAS) do DF enfrenta problemas como a expansão de um Instituto com gastos milionários sem comprovação de resultados, falta de interoperabilidade dos sistemas, insuficiência de apoio diagnóstico e terapêutico, além da desorganização das redes temáticas e de serviços. Essas deficiências resultam em lacunas graves no cuidado à população e em mortes evitáveis.
Financiamento e interesses políticos que prejudicam a saúde pública
As falhas que levam a mortes diárias no DF são custeadas por quase R$ 10 bilhões em isenções fiscais concedidas ao empresariado local, enquanto a base governista na CLDF aprova acordos que estagnam políticas públicas por 15 anos. Essas medidas têm como objetivo evitar a queda de um banco público, afetado pela compra de títulos podres de um banco falido, favorecendo aliados políticos. O Distrito Federal, assim, convive com o abandono e o descaso, enquanto seus cidadãos esperam por cuidados essenciais.
Desafio para profissionais e cidadãos: reverter o cenário atual
O rosto do Distrito Federal permanece marcado pela dor e pela espera por atendimento digno. É responsabilidade dos profissionais de saúde, servidores públicos, usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e cidadãos da capital rejeitar a continuidade desse projeto político que precariza serviços, dificulta o acesso a direitos básicos e compromete a vida da população. Honrar a memória de Vilmar Santos, Janaína Araujo, Antônio Marcos, Eva de Oliveira, Raquel França e tantos outros exige não apenas a eleição de um novo projeto para o DF, mas a construção ativa de políticas públicas pautadas na ética e na humanidade.
