A Liberdade Como Terapia
No dia 10 de dezembro, em comemoração ao Dia Internacional dos Direitos Humanos, o Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC), que é gerido pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), em Florianópolis, inaugura a exposição “A liberdade é terapêutica: 35 anos de SUS – Do Holocausto Brasileiro ao Programa de Volta para Casa”. Essa mostra permanecerá acessível ao público até 13 de março de 2026, no Espaço Expositivo II do MIS/SC.
Promovida em parceria com o Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz-Fiocruz, a exposição apresenta uma seleção de fotografias capturadas por Radilson Carlos Gomes, um fotógrafo documental e pesquisador que tem se destacado por sua dedicação à defesa dos direitos humanos e à memória social, especificamente no contexto das políticas públicas de saúde mental no Brasil. Desde 2007, Radilson tem acompanhado a trajetória de indivíduos egressos do Hospital Colônia de Barbacena (MG), um local que se tornou símbolo de um dos episódios mais sombrios da história brasileira, conhecido como Holocausto Brasileiro. Seu trabalho se traduziu em um acervo que se tornou referência nacional sobre a desinstitucionalização do cuidado manicomial no país.
Em um período de 17 anos, Radilson registrou o cotidiano nas Residências Terapêuticas, criou retratos, coletou depoimentos manuscritos e analisou o impacto do Programa de Volta para Casa, iniciativa lançada em 2003 pelo Ministério da Saúde. Seu olhar atento e sensível destaca a permanência, o vínculo comunitário e a dignidade de quem passou por longas internações, ressaltando a autonomia e a reestruturação da identidade desses indivíduos. As fotografias resultantes desse rico trabalho figuram em pesquisas, livros e projetos audiovisuais, além de contar com colaborações com a Fiocruz.
As imagens, que datam de 2007 a 2024, retratam a transição da realidade manicomial para a liberdade, evidenciando a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) na promoção da autonomia, cidadania e dignidade das pessoas atendidas. A exposição salienta como, ao longo de seus 35 anos, o SUS se tornou um dos mais avançados sistemas de saúde mental do mundo, reconhecido internacionalmente por seu enfoque integral e territorial, priorizando a liberdade, a inclusão e os direitos humanos.
Um dos pilares desse processo é o Programa de Volta para Casa, estabelecido pela Lei Federal nº 10.708 de 2003, que proporciona assistência psicossocial a pessoas que passaram por longas internações psiquiátricas. Este programa é considerado uma das iniciativas mais significativas do SUS, facilitando a inserção de indivíduos na vida comunitária, reduzindo violações históricas e apoiando o movimento de desinstitucionalização no Brasil.
A mostra é estruturada em três atos narrativos, que exploram as transformações sociais, institucionais e humanas que essas políticas geraram:
Ato I – O Holocausto Brasileiro (2007):
- Vestígios da violência manicomial e a urgência da Reforma Psiquiátrica.
Ato II – A Travessia (2007–2017):
- O processo de desinstitucionalização e a implementação do Programa de Volta para Casa.
Ato III – A Liberdade como Terapêutica (pós-2017):
- A vida em liberdade: afeto, autonomia, pertencimento e cidadania.
Diante do impacto desse programa, mais de 8 mil pessoas já foram beneficiadas ao longo de duas décadas, com cerca de 4 mil beneficiários ativos atualmente. Além disso, o Programa estimulou a criação de 870 Residências Terapêuticas em todo o Brasil. Essa evolução é reconhecida como uma das mais importantes conquistas do SUS no campo da saúde mental, simbolizando a mudança do modelo manicomial para uma abordagem de cuidado focada na liberdade, dignidade e direito à vida comunitária.
A frase que sintetiza a essência da exposição, “A liberdade, como demonstra cada fotografia, é verdadeiramente terapêutica”, reflete a mensagem central da mostra: a emancipação e a autonomia são tão fundamentais para a saúde quanto qualquer tratamento médico.

