O Crescente Perigo das apostas online

Entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência do consumidor gerada pelas apostas online resultou na retirada de R$ 143 bilhões do comércio varejista. Esse valor é equivalente ao total das vendas realizadas durante os períodos natalinos de 2024 e 2025.

Os brasileiros destinaram mais de R$ 30 bilhões mensalmente às plataformas de apostas, comprometendo a renda disponível para o pagamento das dívidas. Esse cenário pode ter levado cerca de 270 mil famílias a enfrentarem a chamada “inadimplência severa”, caracterizada por atrasos nos pagamentos superiores a 90 dias.

As informações foram fornecidas pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A entidade enfatiza que as apostas não devem ser vistas apenas como uma forma de entretenimento, mas como um risco significativo à saúde financeira das famílias, pois drenam recursos que poderiam ser utilizados no comércio varejista e no consumo produtivo.

Impacto Direto no Consumo

A CNC observa que a inadimplência relacionada aos gastos com apostas afeta diretamente o consumo e as vendas do comércio varejista. O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, alerta que a tendência é que, em momentos de dificuldades financeiras, famílias reduzam gastos não essenciais, além de sacrificarem até mesmo os gastos essenciais.

“Podem deixar de trocar de celular ou adquirir novas peças de vestuário devido ao agravamento da dívida”, explica Bentes, que apresentou uma análise econométrica em Brasília, baseada em dados coletados pela CNC e pelo Banco Central.

Vulnerabilidades Diversificadas

A análise da confederação revela que os impactos das apostas variam conforme o grupo demográfico. Homens, famílias com renda de até cinco salários mínimos, pessoas acima de 35 anos e aqueles com maior nível de escolaridade apresentam maior vulnerabilidade às consequências das apostas.

Ainda segundo a CNC, até mesmo famílias com rendas mais altas podem ser afetadas, desviando recursos para jogos de azar e, consequentemente, enfrentando dificuldades para honrar seus compromissos financeiros, resultando em atrasos e inadimplência.

“As apostas têm um impacto mais acentuado nas famílias mais vulneráveis, aumentando sua carga de endividamento, enquanto para os mais abastados funcionam como uma alternativa a outras formas de dívida, mesmo assim gerando inadimplência”, detalha a apresentação da confederação.

Necessidade de Regulação

José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, defende a implementação de políticas públicas que regulam o setor de apostas e promovem a proteção dos consumidores. Ele salientou em uma nota à imprensa que as apostas online estão afetando diretamente a renda das famílias brasileiras.

“O impacto já não é mais pontual; tornou-se um problema macroeconômico. É urgente discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras”, afirmou Tadros.

Endividamento Atinge Níveis Alarmantes

Conforme dados da CNC, 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas atualmente, um índice alarmante que se aproxima do registrado no final de 2022, quando 78% estavam nessa situação. Entre 2019 e 2022, a proporção de famílias endividadas cresceu quase 20 pontos percentuais.

Demandas por Maior Transparência

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as plataformas de apostas legais no Brasil, enviou uma notificação formal à CNC, solicitando “transparência metodológica” e “acesso completo” às bases de dados utilizadas pela entidade para avaliar o impacto das apostas no endividamento familiar.

Para o IBJR, os estudos anteriores partiram de premissas que não se alinham com dados oficiais. O instituto argumenta que as conclusões da CNC são alarmistas e divergem das métricas oficiais, pedindo um debate mais fundamentado sobre o tema.

Share.
Exit mobile version