Celebrando a Cultura Afro-Brasileira

Na manhã ensolarada de Santo Amaro, o aroma de alfazema preenchia o ar enquanto as primeiras baianas se preparavam para a Lavagem da Purificação. O som dos atabaques ecoava, marcando o início de uma das tradições mais significativas da cidade. Com passos lentos e cânticos vibrantes, a festividade começou a tomar forma. À medida que as horas passavam, uma multidão vestida de branco se juntou aos cortejos, acompanhando os ritmos que conduziam até a Igreja Matriz, em um domingo que se destacou pela forte presença do povo de axé nas ruas.

Com um investimento recorde em 2026, o Edital Ouro Negro visou fortalecer a Lavagem da Purificação, apoiando três grupos essenciais: Samba Creoula, Charanga da Cobrac e Afoxé Tumbá Lá e Cá. O edital garantiu estrutura, transporte e condições adequadas para que os grupos pudessem realizar seus desfiles com dignidade.

Liberdade Religiosa e Expressão Cultural

O bloco Samba Creoula, que abriu o cortejo, foi criado em 2015 dentro do Ilê Axé Omorodé Loni Oluaye. Este grupo nasceu da conexão entre o terreiro e a Lavagem da Purificação, reunindo samba de roda, samba de caboclo e a participação das baianas, fundamentais para a celebração. Antes de iniciar o desfile, o bloco realizou um padê, rito importante para a espiritualidade do povo de santo.

Pai Gilson, babalorixá do terreiro e líder do Samba Creoula, ressaltou a essência da lavagem como um momento de purificação espiritual. “Esse evento representa fé e um esforço para unir diferentes crenças”, explicou. Com mais de 40 anos de participação, ele destacou que a festividade também simboliza a liberdade religiosa. “Vejo a lavagem como uma oportunidade de culto e expressão, onde o povo de axé pode se apresentar sem preconceitos”, declarou.

Sobre a relevância do Edital Ouro Negro, Pai Gilson comentou: “Esse edital é uma ferramenta crucial, permitindo que nossa cultura ocupe as ruas e mostrando ao mundo o que conseguimos fazer com nossas indumentárias e nossa arte”.

União e Comunidade na Celebração

Camila Mota, filha de Pai Gilson e integrante do Samba Creoula, também compartilhou sua visão sobre a celebração. Para ela, o dia é uma grande mobilização comunitária. “A alegria é contagiante. As mulheres se empenham para que as baianas estejam sempre impecáveis”, relatou.

Logo após a passagem do Samba Creoula, a Charanga da Cobrac apresentou um desfile em homenagem a Dona Nicinha do Samba e Pai Pote, figuras emblemáticas da cultura local, em frente à Casa de Dona Canô. Leonardo Vinícius, coordenador geral da Charanga, ressaltou a importância do Edital Ouro Negro na qualidade do trabalho do grupo. “Desde os anos 90, participamos da lavagem e a ajuda do edital é fundamental para que possamos apresentar um desfile mais organizado, com maior número de músicos negros”, afirmou.

Ele também enfatizou a relevância do projeto para promover a cultura afro-brasileira além da capital. “Nosso grupo é autêntico, trazendo a cultura negra em sua essência. O fomento é essencial para que as tradições culturais se mantenham vivas, não apenas nos grandes centros, mas também no interior da Bahia”, explicou.

A Importância do Afoxé Tumbá Lá e Cá

No período da tarde, o Afoxé Tumbá Lá e Cá, vinculado ao terreiro Caboclo Mata Virgem, animou a festividade com um mini trio. Heloá Ramaiane, líder do projeto, descreveu a lavagem como um ato sagrado e coletivo. “É um momento de renovação e fortalecimento da nossa fé, além de uma demonstração de coletividade”, afirmou. “O povo de axé é o coração pulsante da lavagem, pois cada participante carrega uma história e saberes ancestrais”.

Heloá também destacou a importância do Edital Ouro Negro para a viabilização do desfile. “O apoio do edital foi essencial para assegurar que o sagrado esteja presente na manifestação. Ele proporcionou transporte, vestimentas e a estrutura necessária para trazer o terreiro para as ruas”, concluiu.

Compromisso com a Ancestralidade

Instituído em 2008, o Programa Ouro Negro reflete o compromisso do Governo da Bahia por meio da Secretaria de Cultura e da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, visando ao fortalecimento das manifestações culturais afro-brasileiras. Através do edital, são concedidos recursos financeiros a blocos afro, afoxés, grupos de samba e outros, assegurando que as tradições culturais sejam mantidas e celebradas em todo o estado.

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