Impacto da Doença de Chagas no Coração dos Pacientes
A Doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e pode ser transmitida pela picada do barbeiro ou pelo consumo de alimentos contaminados. Este distúrbio pode resultar em sérios problemas cardíacos. Um estudo recente realizado no Hospital de Base de Brasília, no Distrito Federal, revelou que aproximadamente 90% dos pacientes que recebem um implante de marcapasso nessa instituição chegam com dificuldades cardíacas relacionadas à doença. O Dr. José Joaquim Vieira Junior, chefe do ambulatório de marcapasso e cirurgião cardíaco do hospital, afirma que o diagnóstico da Doença de Chagas é frequentemente complicado, pois a fase crônica pode ser assintomática.
Por essa razão, muitos pacientes podem conviver com a doença por longos períodos sem saber, desenvolvendo complicações graves como insuficiência e arritmia cardíaca, além do aumento do tamanho do coração.
O Dr. Vieira Junior destaca que, mesmo em casos onde a Doença de Chagas não está confirmada, os pacientes são tratados com base nos sinais e sintomas que podem levar à morte. “Em nossa região, com altos índices de casos, tratamos os pacientes por suas manifestações clínicas. Mesmo que um paciente apenas descubra que é chagásico anos depois, ele já terá recebido tratamento adequado”, ressalta o cirurgião.
Estatísticas de Procedimentos Cardíacos no Hospital de Base
No Hospital de Base de Brasília, cerca de 600 implantes de marcapasso são realizados anualmente. Os dados fornecidos ao Brasil 61 pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF) mostram o número de procedimentos realizados nos últimos três anos:
- 2023: 637 procedimentos cirúrgicos;
- 2024: 650 cirurgias;
- 2025: 655 procedimentos.
Esses procedimentos incluem a implantação e troca de marcapassos, ablações, estudos eletrofisiológicos e cardioversões terapêuticas em pacientes com a Doença de Chagas. É importante notar que o hospital não realiza transplantes cardíacos.
Doença de Chagas em Outras Regiões do Brasil
Além de Brasília, dados da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro indicam que até agora não houve registros de internações por formas agudas ou crônicas da doença com comprometimento cardíaco na cidade. Informações recentes também apontam que, entre 2023 e 2025, Salvador registrou 1.361 procedimentos de marcapasso possivelmente associados à Doença de Chagas.
O farmacêutico bioquímico Fred Luciano Santos destaca que a Região Metropolitana de Belém tem enfrentado surtos esporádicos de contaminação oral da Doença de Chagas, principalmente relacionados ao consumo artesanal de açaí e outros produtos locais.
Surtos e Dados Epidemiológicos Recentes
O estado do Pará, conforme dados do Ministério da Saúde, registrou 408 infecções pela Doença de Chagas em 2023. Em 2026, o município de Ananindeua confirmou 42 casos e quatro óbitos, levando à decretação de um surto pela pasta. Um boletim epidemiológico de junho de 2025 revelou 5,4 mil casos de Doença de Chagas crônica em 710 municípios, sendo a Região Norte a mais afetada, especialmente entre mulheres em idade fértil.
Embora o Brasil tenha recebido reconhecimento internacional da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 2006 por interromper a transmissão da Doença de Chagas pelo barbeiro, ainda existem focos de transmissão no país, como em Tremedal e Novo Horizonte, na Bahia.
Consequências e Tratamento da Doença de Chagas
O médico infectologista e pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Dr. Roberto Saraiva, explica que o coração é um dos órgãos mais afetados pela infecção, pois o parasita ataca as células do músculo cardíaco, causando um enfraquecimento progressivo do órgão. “Esses miócitos são infectados, se multiplicam e, após a morte da célula, não são repostos, resultando em arritmias e outras complicações cardíacas”, detalha.
Os efeitos mais severos ocorrem durante a fase crônica da doença, onde o aumento e a dilatação do coração tornam-se comuns. O cirurgião José Joaquim Vieira Junior complementa que o parasita provoca uma inflamação que leva à degeneração das fibras do músculo cardíaco, tornando o coração mais vulnerável.
O diagnóstico precoce é crucial, uma vez que a fase aguda da Doença de Chagas pode ser sintomática ou assintomática. Os principais sintomas incluem febre prolongada, dor de cabeça, fraqueza intensa e inchaço no rosto e nas pernas.
Estratégias de Prevenção
O Ministério da Saúde recomenda que a prevenção da Doença de Chagas inclui medidas para evitar a presença de barbeiros nas residências, como o uso de telas em janelas e portas, além da utilização de repelentes e roupas de manga longa, especialmente à noite e em áreas de mata. Também é ressaltada a importância da prevenção da transmissão oral para garantir a saúde da população.

