Educação no Distrito Federal: avanços e desafios na busca pela igualdade

O Distrito Federal se destaca em indicadores educacionais na PNAD Contínua Educação 2025, divulgada pelo IBGE, apresentando uma taxa de analfabetismo de apenas 2,0%, menos da metade da média nacional. Além disso, 41,3% da população com 25 anos ou mais possui ensino superior completo. Apesar desses números promissores, a capital federal ainda enfrenta importantes desafios para reduzir desigualdades raciais e de gênero no acesso e permanência nas escolas. Para compreender como transformar esses dados em melhorias concretas, o Jornal de Brasília conversou com especialistas em políticas sociais e com a Secretaria de Educação do DF (SEEDF), que detalharam os esforços em andamento para aprimorar a educação pública na região.

Analfabetismo e o perfil da população estudantil no DF

Em 2025, o Distrito Federal registrava cerca de 48 mil pessoas com 15 anos ou mais analfabetas, o que representa uma taxa de 2,0%, bem inferior à média brasileira de 4,9%. As menores taxas nacionais estão em Santa Catarina (1,5%), Rio de Janeiro (1,6%) e São Paulo (1,9%), enquanto estados como Alagoas e Piauí apresentam índices superiores a 13%. No DF, o analfabetismo é mais prevalente entre idosos: 29 mil pessoas com 60 anos ou mais são analfabetas, correspondendo a 7,0% nessa faixa etária.

Valdir Corrêa Viana, estudante de ciências biológicas da Universidade de Brasília e participante do Ensino de Jovens e Adultos (EJA), compartilha a experiência de quem superou o analfabetismo na terceira idade. Aos 64 anos, ele destaca a importância do incentivo dos professores para a permanência e o avanço nos estudos. Segundo Valdir, o apoio recebido no Centro II de Taguatinga Sul foi fundamental para seu desenvolvimento acadêmico, tornando-o uma inspiração para colegas e um exemplo de que a educação transforma vidas em todas as idades.

Desigualdades educacionais persistentes no DF

Apesar do destaque do DF em índices de conclusão da educação básica, o abismo educacional em função de raça e gênero continua evidente. Em 2025, 75,2% da população com 25 anos ou mais havia concluído ao menos o ensino médio, o maior percentual do país. O avanço no ensino superior também é significativo, passando de 31,3% em 2016 para 41,3% em 2025.

Por outro lado, a desigualdade racial permanece clara: 82,8% das pessoas brancas completaram o ensino médio, enquanto esse número cai para 70,1% entre pretos e pardos, mantendo uma distância de 12,7 pontos percentuais. Essa diferença, embora reduzida em relação a 2016, evidencia desigualdades estruturais. A média de anos de estudo reflete esse cenário, com 13,2 anos para pessoas brancas e 11,6 para pretas ou pardas.

Perfil dos estudantes e taxas de escolarização no DF

O Distrito Federal contava em 2025 com 959 mil estudantes ativos, com destaque para o grupo de 6 a 14 anos, que representa 37% do total. O Ensino Fundamental é a etapa com maior número de matrículas, cerca de 360 mil, somando-se aos estudantes do projeto Avanço do Jovem na Aprendizagem (AJA) e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), totalizando 367 mil alunos. O Ensino Superior reúne 242 mil estudantes na capital.

A taxa geral de escolarização no DF alcançou 32,0% em 2025, acima da média nacional de 27,1%. O acesso à educação infantil cresceu, com 39,4% das crianças de 0 a 3 anos atendidas em creches e 96,3% na faixa de 4 a 5 anos. Na faixa de 6 a 14 anos, a escolarização é praticamente universal, com 99,6%, enquanto entre os jovens de 15 a 17 anos a taxa chega a 97,6%.

Posicionamento da Secretaria de Educação do DF (SEEDF)

A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF) atribui os avanços educacionais aos esforços contínuos na implementação de políticas que garantem o acesso, a permanência e a aprendizagem dos estudantes da rede pública. Destaca o Programa Alfaletrando, que aumentou de 59% para 65% a alfabetização ao final do 2º ano do Ensino Fundamental entre 2024 e 2025, superando a meta estabelecida para o DF.

Além disso, a SEEDF reforça iniciativas como o Programa Pontes para o Mundo, que visa estimular o desempenho acadêmico, a frequência escolar e o ensino de línguas estrangeiras. A pasta também ressalta o impacto das ações voltadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA), incluindo alfabetização, busca ativa e ampliação da oferta.

A secretaria destaca ainda o fortalecimento da cultura de avaliação, com altos índices de participação no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) em 2025, com mais de 85% de comparecimento nas etapas avaliadas. Para aprimorar as políticas públicas, a SEEDF acompanha os resultados e aguarda a divulgação oficial dos dados consolidados pelo Inep para orientar novas estratégias na rede.

Aspectos sociais e territoriais da desigualdade educacional

Erci Ribeiro, especialista em Política Social, aponta que, apesar dos altos índices de escolaridade no DF, as desigualdades históricas e estruturais persistem, especialmente nas questões raciais. Ela ressalta que o acesso à educação não é suficiente para eliminar as disparidades sociais que afetam oportunidades em educação, trabalho, moradia e mobilidade.

Ribeiro destaca que as desigualdades sociais possuem forte componente territorial, com regiões administrativas menos atendidas pelos serviços públicos sofrendo com a precariedade da infraestrutura. A população negra é a mais impactada pela falta de acesso a direitos básicos, e as mulheres negras enfrentam barreiras adicionais decorrentes da interseção entre raça e gênero.

Para a especialista, a redução das diferenças educacionais entre brancos e negros, embora positiva, ainda é insuficiente diante das condições sociais acumuladas, como pobreza e transporte precário. Ela defende políticas públicas que assegurem a permanência escolar, apoio às famílias vulneráveis e o fortalecimento das escolas em territórios mais afetados, garantindo igualdade real para todos os estudantes.

Gestão pública e os desafios da educação no DF

O professor Melquezedech Moura, coordenador da pós-graduação em Gestão Pública da UDF, destaca que as barreiras econômicas e a renda familiar são os principais fatores de exclusão no sistema educacional do Distrito Federal. Para ele, a falha na equidade no acesso à educação exige políticas públicas eficazes, como um financiamento estudantil sustentável, expansão do ensino técnico e foco em renda.

Moura explica que a vulnerabilidade socioeconômica leva jovens a ingressar precocemente no mercado de trabalho, comprometendo a formação e a igualdade de oportunidades. Ele defende a integração entre políticas educacionais e de emprego, com estratégias como educação dual e ensino técnico integrado para alinhar formação à empregabilidade.

Sobre o analfabetismo, especialmente entre idosos, o professor destaca problemas clássicos na gestão da Educação de Jovens e Adultos (EJA), como baixa adesão e falta de inovação. Ele enfatiza a necessidade de ações de longo prazo que garantam não apenas vagas, mas a permanência e a conclusão dos estudos, assegurando oportunidades reais para todos, considerando as condições sociais específicas de cada estudante.

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